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Dossier Expresso

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A herança desconhecida
Por António Henriques
Jornal Expresso, 6 de Março de 1999

Museu do Trabalho, em Setúbal


SE TUDO correr como previsto, os pouco mais de 50 mil habitantes de Ajácio, capital da ilha francesa da Córsega (e os cinco mil portugueses que habitam a ilha) poderão conhecer, a partir de Junho, a vida de um conterrâneo que ganhou fama pelo trabalho feito a alguns milhares de quilómetros. A verdade é que uma exposição sobre Michel Giacometti (1929-1990) - organizada pela Câmara Municipal de Cascais (CMC), reposição de uma outra já apresentada em Portugal - pode ser uma surpresa tão grande para os corsos quanto o será para as novas gerações de portugueses, na terra onde veio procurar, com a ajuda de um gravador de bobines, uma identidade cultural que acreditava já estar submersa na maior parte da Europa.

Até para aqueles que conservam em casa um valioso exemplar dos álbuns de «serapilheira» - cujo revestimento belo, mas estranho e árido ao toque, é uma fabulosa síntese dos conteúdos musicais que lá estão dentro - que ouviram, em algum lugar, o resultado de recolhas musicais ou se lembram de ver uma série de programas em que a musicologia e a etnologia aparecem de mãos dadas em imagens de extraordinária beleza, todas essas referências parecem hoje tão longínquas quanto os sons que Giacometti recolheu pelo país fora o eram para consciência colectiva do Portugal de então e o são na nossa memória actual.

 

Tréculas (Minho)

Afinal de contas, o corso que aterrou em Portugal em 1959 e que se fixou com um misto de paixão por uma portuguesa e pelo campo de trabalho que descobriu ter à sua frente, permanece, como tanto se tem repetido, um desconhecido. A prová-lo está o espólio descoberto, ainda não há um ano, na casa que Giacometti habitou em Cascais, de que ninguém parecia saber o paradeiro e que tinha sido vendido juntamente com o imóvel. O que se descobriu, com espanto e aperto no coração - devido às péssimas condições de conservação em que se encontrava - é uma lista, ainda incompleta, de preciosidades, essenciais para o conhecimento da personalidade de Giacometti e dos critérios em que baseava o seu trabalho. Na Casa Verdades de Faria, a pouco mais de 30 quilómetros de Lisboa, onde a CMC instalou o Museu da Música Portuguesa, aquele baú de informações por desvendar faz companhia a uma biblioteca especializada com 4000 volumes (cancioneiros, obras de musicologia, filologia, literatura popular e uma importante colecção de revistas, com espécimes únicos a nível nacional) que Giacometti vendeu ao município em 1989. No mesmo local está uma colecção de 381 instrumentos musicais (vendida em 1982 à mesma entidade e enriquecida com compras posteriores), adquiridos em antiquários e ferros-velhos ou a proprietários que se queriam ver livres deles. «Temos cartas endereçadas a Giacometti avisando-o de que alguém se quer desfazer de determinado instrumento. O que ele sabia era que nunca podia adquiri-los aos tocadores porque isso era deixá-los sem o meio de se expressarem», explica Conceição Correia, directora do Museu da Música Portuguesa.

 

Corna (Alentejo)

Para quem chega de novo ao mundo que Giacometti escolheu para palmilhar em cansativas correrias de 30 anos, seja através de sons, imagens, fotografias ou de uma mistura de todos esses elementos - um mundo que desapareceu para sempre - os sentimentos de estranheza e maravilhamento não podem ser maiores. Pode ser ao som de uma Bacelada - canto de trabalho de Tavarede, Figueira da Foz, onde um grupo de cavadores castiga a terra com enxadas ao ritmo das ordens de um deles, o mandador: «Firme gente/ Carrega e manda arruar/ E dá-lhe que é para durar menos/ Carreguem na terra dura/ Arrua com esta pancada/ Arrua alivia bem/ À terra nova com ela bem p'ra fora/ Abaixo ferro/ Isso mesmo/ Entra e carrega-lhe outra (...) Ou pode acontecer ouvindo as maravilhosas polifonias do Minho (coro de vozes femininas, fenómeno raro na Europa), ou o som do «lato» (instrumento artesanal feito com braço de guitarra do tipo de Coimbra e cuja caixa de ressonância é um bidão de óleo, construído por um cantador e improvisador popular de Miranda do Douro) ou ainda, entre tantos outros exemplos, escutando uma «cantiga da roda» entoada por uma mulher de Dornelas do Zêzere, Pampilhosa da Serra, enquanto faz mover a roda de um poço para tirar água, com a força dos pés - da comunhão intensa com os ritmos da terra o que por vezes sobressai é um trabalho de quase autêntica escravatura. «Giacometti tinha uma paixão pela memória ancestral e encontrou, em pleno século XX, um país em que podia recolher a tradição rural em estado puro, sem a aculturação dos meios de comunicação», afirma Leonor Lains, que viveu e trabalhou com Giacometti entre 1970 e 1977.

 

Cabaça (Alto Alentejo)

Mas se pode ser complicado afirmar que o musicólogo aprisionou nas suas bobines e fotografias tradições tão primitivas ou «em estado puro» - para recuperar o conceito sempre complicado de «autenticidade» que Giacometti gostava de afirmar ser o objectivo da sua incansável recolha - é indiscutível que ajudou a salvaguardar um património único, mesmo que tenha tido importantes antecessores nessa tarefa. A recolha, apesar de complexa, tornou-se num caudaloso rio de referências musicais que, ao desbravar as margens, arrancou à terra elementos de etnologia - certamente com pretensão de conhecer a origem do caudal. É assim que se explica que, ao lado dos sons, Giacometti tenha coleccionado instrumentos, que falam sobre o trabalho da terra mas também sobre a fiação, o trabalho doméstico ou revelam pequenos apontamentos do quotidiano.

Este espólio, constituído por 1184 objectos, é visitável em Setúbal, no Museu do Trabalho Michel Giacometti e respectiva reserva. «Uma vez contactei Giacometti no sentido de saber qual era a ideia dele para completar a colecção. Era óbvia: juntar à colecção objectos do trabalho industrial», conta Fernando António Baptista Pereira, director do Museu de Setúbal. Este museu está instalado no Convento de Jesus, local onde, em finais de 1982, Baptista Pereira encontrou o espólio de Giacometti «bem embrulhado, mas fechado ao público». Giacometti elaborou, em 1975, um projecto de recolha popular, a que chamou Plano de Trabalho e Cultura, no quadro do então recém-criado Serviço Cívico Estudantil.

 

Michel Giacometti em trabalho de recolha

No Verão desse ano, mais de uma centena de jovens respondeu ao apelo do musicólogo francês e varreu alguns concelhos do país em busca de instrumentos musicais e de trabalho, utensílios domésticos, fotografando e registando sons de exemplares vocais e instrumentais, lendas, histórias e recolhendo informação sobre medicina popular. Estabeleceu-se que a maior parte desta informação ficasse à guarda do INATEL (ex-FNAT, Federação Nacional para a Alegria no Trabalho), entidade em cujo processo de reestruturação Giacometti estava fortemente empenhado e para o qual propunha a criação de um Centro de Documentação Operário-Camponês (que devia substituir o Grupo de Etnografia e Folclore da instituição) e de um Museu do Trabalho. Pouco tempo depois, Giacometti saiu do INATEL em conflito com a organização e muito do espólio recolhido seria doado pelo próprio INATEL à Câmara de Setúbal, que tinha manifestado interesse na aquisição. Durante muitos anos o Museu do Trabalho foi um projecto sem espaço físico, até que a Câmara de Setúbal adquiriu uma unidade de indústria conserveira fechada desde a década de 60.

Reconvertida, abriu ao público em Maio de 1995, e prossegue, de algum modo, o trabalho de Giacometti: «Continuamos a adquirir objectos de ofícios ligados à metalomecânica, à latoaria, à litografia - ou seja, completamos a recolha industrial que Giacometti não teve tempo de fazer - e recebemos doações: caso dos arquivos do Sindicato da Indústria Conserveira», diz Baptista Pereira. Sinal dos tempos: no mês em que o museu abriu portas, fechou, em Setúbal, a última fábrica conserveira, uma unidade que, nos anos 20, chegou a ter 120 trabalhadores.

 

Zuca-truca (Guimarães)

Embora Giacometti tenha permanecido com as pessoas o tempo suficiente (e obrigatório, como se verá) para que designadamente as imagens recolhidas não tenham o aspecto de uma intromissão nas vidas que procurou reter, o próprio acto de recolha resultava de uma empatia fácil: «Em cinco minutos cativava as pessoas, que se sentiam bem com ele. Deviam achar engraçado que o 'senhor francês' quisesse gravar coisas a que ninguém ligava a mínima importância», recorda Carlos Maduro, 32 anos, que trabalhou com Giacometti nos final dos anos 80. Em recolhas de campo, a transcrever material gravado (cujo trabalho científico de classificação foi feito por Fernando Lopes-Graça), fotografando ou catalogando material, Maduro fez um périplo pelas piores pensões do país, viu Giacometti desgravar material por falta de fita para o dia seguinte, ouviu as suas determinações para fotografar («tirar poucas, todas boas») e extenuou-se na tarefa de tantos dias seguidos erguer às costas o material de gravação e reunir as pessoas, «propositadamente para as gravações». Era o caso, segundo Leonor Lains, das alturas em que a chegada de Giacometti não «coincidia com a actividade agrícola», refere num depoimento para um trabalho universitário. Como todas as restrições impediram uma recolha mais rica e aprofundada é qualquer coisa difícil de determinar. Tudo leva a crer que, além da indiferença que o trabalho de Giacometti causava nas instituições, o musicólogo exigia algo que aquelas não gostariam de entregar de mão beijada, liberdade de acção. «Sabia que os apoios traziam agarrados concessões e queria controlar as edições, os prazos, o seu ritmo de trabalho», diz Carlos Maduro. Pode ser um exagero dizer que a dificuldade de meios o aproximava da vida dura das populações com quem conviveu, mas a verdade é que, em muitas regiões, procurava saber o que estaria escondido por detrás dos alegres folclores que identificava com a propaganda do regime de Salazar e que inspiravam a ternura dos turistas. Como diz Carlos Maduro, «fazia parte dele fazer parte do drama das pessoas».

Bibliografia consultada - Michel Giacometti: os Ventos e as Vozes, de Ana Sofia Vieira, Departamento de Ciências Musicais da U. Nova de Lisboa, 1997; Ao Encontro do Povo – A Missão, de Jorge Freitas Branco e Luísa Tiago de Oliveira, Celta Editora, 1993. 


A visitar

 

Museu da Música Portuguesa
Casa Verdades de Faria (Monte Estoril)
Segunda a sexta, 10-13h e 14-18h. Sábados e domingos, 14-18h.
Contacto: (01) 482.5494.
Colecção de instrumentos musicais, biblioteca especializada e centro de documentação com registos videográficos dos trabalhos de Giacometti. Directora: Maria Conceição Correia.

Museu do Trabalho e Reserva Michel Giacometti
(Setúbal)
Terça a domingo, 9h30-18h (museu) e segunda a sexta, 9-12h30 e 14-17h30 (Reserva).
Contacto: (065) 27434
Colecção de instrumentos agrícolas e objectos do quotidiano. Directora: Isabel Victor.

 

fonte: Jornal Expresso

 


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