Associação Gaita-de-Foles A.P.E.D.G.F. APEDGF
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Faixas do Disco
01. Passodobrado (2:37) 
02. O Nabo do Grelo (2:52) 
03. Marinheiro do Mar Largo (3:21) 
04. Valsa (3:06) 
05. A Mulher é um Anjo do Céu (2:46) 
06. Fado (1:59) 
07. Corridinho das Casas Novas (1:54) 
08. Vira (3:32) 
09. Sebastião (2:24) 
10. Alvorada (3:44) 
11. Laurindinha (1:56) 
12. Fado Hilário (1:08)


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Eduardo Carvalho - "Chico Gato"
Lançamento de Disco pela Sons da Terra
Ribeira de Frades, 26 de Fevereiro de 2005


Foto: Arquivo da Associação Gaita de Foles

No próximo dia 26 de Fevereiro de 2005, pelas 17h00, no Salão Nobre da Junta de Freguesia de Ribeira de Frades, Coimbra, vai ser apresentado um CD com gravações do gaiteiro Eduardo Carvalho - o popular "Ti Chico Gato", - integrado na colecção da editora Sons da Terra.
Leia aqui o artigo completo sobre a vida de um Gaiteiro que foi gravado por Michel Giacometti e que chamou a atenção de muitos outros investigadores e apaixonados pela música popular portuguesa.


Uma Vida Consagrada à Gaita de Foles

Eduardo Carvalho nasceu em 23 de Junho de 1927, em Ribeira de Frades, localidade pertencente ao concelho de Coimbra na qual sempre se registou uma importante tradição gaiteira, cuja dinâmica de permanência e de continuidade expressiva urge preservar e estimular, sob pena de se perder um importante património da nossa Cultura Popular. Trata-se de uma tradição apoiada numa prática artesanal continuada de fabrico de gaitas autóctones, das quais chegaram aos nossos dias belíssimos exemplares, muitos dos quais ainda tocados por alguns dos mais antigos tocadores da região.

A gaita de foles ainda hoje utilizada por Eduardo Carvalho – que esteve parada cerca de dois anos por motivo do falecimento da sua mulher – apresenta peças feitas em rijo e temperado buxo, há mais de cinquenta anos, pelo famoso artesão de Bencanta, José Mendes Seco: uma ponteira de formas delicadas e harmoniosas, uma campânula do tipo ovóide (que, porém, Eduardo Carvalho não usa por não gostar do respectivo som, preferindo uma outra do tipo tulipáceo) e uma intermédia do bordão. 

De realçar a expressividade tímbrica da gaita de foles característica desta região (“gritante”, como afirmou Ernesto Veiga de Oliveira), onde se registou a existência de uma tradição de fabrico local hoje praticamente extinta de instrumentos particularmente robustos, apenas com similitudes e afinidades nas gaitas de foles mirandesas (Oliveira, 1966):

Na área de Coimbra, as gaitas de foles eram em grande parte fabricadas na região, por torneiros que possuem ferramenta apropriada; temos notícia de várias gerações desses fabricantes de há cerca de 80 anos a esta data; subsiste pelo menos um na própria cidade de Coimbra: os instrumentos têm ali um aspecto geral peculiar, torneados e pintados de várias cores, grossos e com um pesado roncão muito diferentes de aspecto, por um lado, das finas e leves gaitas minhotas e galegas, mas também, por outro, das igualmente pesadas, mas muito mais rudes, gaitas transmontanas. 
A madeira usada para todas as peças era o buxo, mas hoje preferem o pau-preto para o ponteiro; o saco é agora sempre de borracha; o assoprete fica em cima, a meio, no bocal que corresponde ao lugar do pescoço num “fole” de rês, mas também tem de se amarrar ao roncão, para se não desviar da boca. O instrumento aqui figura igualmente sempre acompanhado de bombo e caixa. 


A gaita de Flamínio de Almeida: um excelente exemplar da tradição coimbrã de Gaita-de-fole (Foto: Pablo Carpinteiro).

Dois exemplares destas gaitas autóctones são os instrumentos ainda hoje tocados por Flamínio de Almeida, de Casal da Misarela, e pelo Ti Chico Gato, de Ribeira de Frades. Diga-se, de passagem, existirem informações sobre alguma tradição de fabrico em Taveiro, localidade próxima de Ribeira de Frades (terra onde o gaiteiro de Frossos, José Nunes Vieira, adquiriu a sua gaita de foles, há mais de cinquenta anos, directamente do artesão que a tinha construído). Trata-se de um instrumento rude e bastante “agressivo” (embora a gaita de foles do Ti Chico Gato seja bastante doce do ponto de vista tímbrico). Neste contexto distintivo, Michel Giacometti considerou a gaita de foles da região de Coimbra um instrumento cantante, chamando a atenção para o facto de apresentar as costumadas anomalias tonais. Henrique Oliveira (Associação Gaita de Foles), nas suas andanças de investigação sobre a permanência das gaitas de foles na vasta região de Coimbra, a propósito do instrumento utilizado por Eduardo Carvalho, afirmou:

O Ti Chico Gato é um dos dois únicos gaiteiros da região de Coimbra que sei ainda tocar numa das fabulosas gaitas autóctones. Trata-se de uma belíssima gaita: robusta e encorpada como a de Flamínio de Almeida, mas com um desenho bastante diferente, principalmente na ronca. Mas o que me voltou a encantar nesta gaita foi o timbre do som destas ponteiras, mais “cheio”, menos estridente e mais suave.

Eduardo Carvalho desde muito cedo que começou a conviver com o mundo das populares gaitas de foles da região. Seu pai, Bernardino Anacleto dos Santos (com o qual não foi criado) era gaiteiro e foi o primeiro a ensinar-lhe os segredos do sopro e as melodias mais populares da região. Mas gaiteiro era também seu avô, o famoso José Melo, gaiteiro de Barreira, no concelho de Condeixa, já falecido, e que foi o único gaiteiro da região de Coimbra a ser gravado e editado Por Michel Giacometti. Refira-se, de passagem, que esta escassez documental só foi muito recentemente contrariada, mais concretamente com a edição (Sons da Terra) do gaiteiro de Casal da Misarela, Flamínio de Almeida. José de Melo, acompanhado por seu irmão, Manuel Melo (caixa) e por António Craveiro (bombo), foi gravado por Ernesto Veiga de Oliveira, de cujos arquivos recentemente Domingos Morais fez divulgar, na Internet, os seguintes espécimes: Alvorada (duas variantes), Arruada, Fado do Hilário, Valsa, Salve Rainha e O Nabo do Grelo.

Mas foi decisiva para a sua aprendizagem a prática adquirida com Francisco Melo, com quem Eduardo Carvalho foi criado e que começou a acompanhar tocando caixa quando tinha apenas sete anos de idade (muitos dos gaiteiros que conhecemos começaram por tocar caixa ou bombo, apenas mais tarde passando a tocar gaitas de foles). Assim como gaiteiro também Manuel Melo, seu tio-avô. 

Foi, pois, esta verdadeira plêiade de populares e prestigiados tocadores que o jovem Eduardo Carvalho foi aprendendo o repertório gaiteiro tradicional, percorrendo as festas da região, tendo começado a tocar gaita de foles por volta dos seus 14 anos, sobretudo ao fim do dia, quando o estado de embriaguez do gaiteiro Francisco Melo já não lhe permitia assegurar mais a função para a qual tinha sido contratado pela respectiva mordomia.

Eduardo Carvalho – popularmente conhecido por Ti Chico Gato devido ao facto de, ainda bebé, ter sido considerado morto e colocado na respectiva féretro, ter dado sinais de vida quando estava em vias de ser sepultado, o que lhe salvou a vida – dedicou toda a sua vida à gaita de foles, ocupando os tempos livres no amanho de uma terra de escassa superfície que possui. Os parcos proventos destas actividades nunca lhe permitiram criar as condições económicas necessárias para abandonar a velha barraca de madeira em que habita.

As suas andanças gaiteiras levaram-no a participar em todas as festas da região, retendo, porém, uma memória emotiva muito intensa da sua participação nas Queimas das Fitas em Coimbra. Numa fotografia obtida por Ernesto Veiga de Oliveira, datada de 1955, pode ver-se Eduardo Carvalho a desfilar no cortejo académico. 


Gaitas na Queima das Fitas em Coimbra

Segundo rezam as crónicas, nos anos 20 do século XX, a Queima das Fitas (festa anual dos estudantes universitários), em Coimbra, iniciava-se com uma alvorada festiva, com foguetes a estalejar nos ares das margens do Mondego e os grupos de Zés-Pereiras a despertar as gentes com o ribombar de caixas e de bombos e os sons estridentes das gaitas de foles. E, nos anos 40 e 50 do referido século, a presença dos gaiteiros permanecia (Lopes, 1982:115): 

Nenhuma romaria em Portugal se lhe poderia comparar. Nele seguiam não apenas estudantes, mas toda uma multidão representativa da maioria dos estratos sociais, incluindo os Zés Pereiras. 

Delfim Francisco, caixeiro de Barcouço, ainda se recorda de, nos anos 50, ver seu pai, um gaiteiro que se encontrou em 1970 com Michel Giacometti, a tocar, na companhia de muitos outros gaiteiros, integrado no cortejo da Queima das Fitas. E a função começava mesmo com o Passodobrado, espécime que foi por nós pela primeira vez editado no disco testemunhal do repertório do gaiteiro de Casal da Misarela, Flamínio de Almeida, e agora documentado no repertório do gaiteiro de Ribeira de Frades, Eduardo Carvalho, popularmente conhecido por Ti Chico Gato, que também possui no seu repertório espécimes como o Fado Hilário (fado dos estudantes) e O Nabo do Grelo, os quais de imediato nos remetem para a sua forte ligação à vida festiva académica. Segundo informação recolhida e disponibilizada por Henrique Oliveira, o Ti Chico vai todos os anos no cortejo académico, não na posição que será natural ocupar pela sua condição de gaiteiro, mas sim junto dos antigos alunos; ou seja, no meio dos velhos médicos, advogados, etc., com os quais conviveu quando estes ainda eram estudantes.

A presença dos gaiteiros na Queima das Fitas, em Coimbra (que se reporta, em face dos testemunhos conhecidos, a princípios do século XIX), terá sido objecto de uma se não proibição pelo menos “orientação” com sentido proibicionista por parte das autoridades académicas durante os anos 50. Embora não nos tenha sido possível obter quaisquer dados concretos sobre esta actuação, a verdade é que nos anos 60 a sua presença era (foi) reduzida e com carácter mais ou menos esporádico, não raro marginal (sem o lugar de destaque que tradicionalmente ocupavam nas referidas festividades académicas). No fundo um processo de extirpação que apresenta algum paralelismo com o que se passou relativamente às festas do Corpo de Deus. De facto, e de acordo com informações veiculadas pelos notáveis textos informativos de João Pedro Ribeiro, em princípios do século XVI, na Procissão de Corpus Christi, em Coimbra, as evoluções dos Alfaiates e das Tecedeiras faziam-se ao som das gaitas e tamboris. Pese embora o facto de Ernesto Veiga de Oliveira considerar o termo “gaita” organologicamente ambíguo, a verdade é que a maioria dos estudiosos tem vindo a considerar (sobretudo por força dos resultados da aplicação de métodos de análise comparada dos vários “títulos” do “regimento” das procissões das festas do Corpus Christi) serem mesmo cornamusas os instrumentos referidos quando, em 1517, se dizia que os alfaates, as tecedeiras, os çapateiros e tecelaens eram obrigados a levar huma gaita ou tamboril.

No que se refere à presença das gaitas de foles em procissões religiosas, regista-se a participação nas festas locais, normalmente tocando espécimes de carácter e funcionalidade reconhecidamente religiosa, como Queremos Deus, Salvé Rainha, Bendito e Louvado Seja… O que ainda se verifica no presente, sobretudo nas festas mais pequenas e sem meios para contratação de fanfarras ou filarmónicas. Não tocam no sagrado mas integram a procissão pelas ruas da terra.

Um Registo Testemunhal de Reconhecida Relevância Cultural

Eduardo Carvalho apresenta ainda um estilo muito pessoal, com um invulgar nível de ornamentos (com especial destaque para o recurso a picados e vibratos, entre outros efeitos estilísticos), assumindo uma postura executiva que de imediato nos remete para a figura do gaiteiro tradicional, pela entrega e dedicação, pelo entusiasmo e vibração. 

A propósito do estilo próprio do Ti Chico Gato, um outro gaiteiro, António Filipe Oliveira, de Arzila, garantiu-nos que lhe bastava ouvir a sua gaita ao longe para de imediato saber ser Eduardo Carvalho quem estava a tocar.

Apesar da extrema dificuldade com que toca actualmente, não tanto por razões de natureza física (embora por vezes prefira tocar sentado, porque sem a bengala as pernas já começam a ceder a tantos anos de tantas e tão intensas andanças) mas sobretudo por uma notória incapacidade em recordar muitos dos toques com que outrora deliciou as gentes nas mais diversas e distintas ocasiões. No entanto, foi possível incluir neste registo testemunhal da sua arte e talento alguns espécimes verdadeiramente expressivos do repertório tradicional dos gaiteiros da área coimbrã, tais como: Alvorada, Passodobrado, Valsa, O Nabo do Grelo, Miraculosa, Fado Hilário, Laurindinha, A Mulher é um Anjo, Fado, Vira, Sebastião, Corridinho das Casas Novas e Marinheiro do Mar Largo. E o respectivo acompanhamento instrumental esteve a cargo de António Amorim Roque (caixa) e António Filipe Oliveira (bombo). 

Mário Correia


Registo: 24/10/2004 
Textos: Joaquim Correia, Jorge Veloso, Mário Nunes e Mário Correia 
Tratamento de Som: José Manuel Almeida 
Direitos Reservados: Eduardo Carvalho 
Produção/Edição: Sons da Terra - Edições e Produções Musicais, Lda. - Rua Oliva Teles, 1411 - Apart. 109 - 4405-385 Arcozelo VNG

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Comentários:

Maria Alzira Melo Miranda
Gostei muito do vosso texto que fala do meu avô, pai e primos.
O meu pai é o João Melo, da Barreira e eu tenho 67 anos, 5 filhos e 20 netos e estou na França há 36 anos. Beijos e abraços para todos. Alzira.

J.P. Leitão Silva
Não vivo agora na Ribeira, mas vivi durante 20 anos, desde que nasci, e uma das fortes memórias que tenho é o som da gaita de foles do Chico Gato. Épico e lírico em simultâneo é a única expressão que encontro para o classificar. Vou tentar encontrar o registo gravado e espero que continuem a trabalhar para a preservação deste imenso, extraordinário e ameaçado património.

João Lamas
Tenho 69 anos, sou da Barreira, Condeixa-a-Nova e povoam meus ouvidos a gaita do Ti Zé Melo, o rufar do Manel Melo, o ribombar do Bombo do Farelo. Já partiram todos. Ficam os sons da minha meninice.

Eiras

Vivo no Planalto Mirandês entre o magnífico som da gaita de foles que acompanha os pauliteiros, verdadeiros representantes desta região. Espero que a gaita de foles nunca se cale.

Renato Santos
Tenho 15 anos, chamo-me Renato e vivo em Lisboa. Mas a minha mãe é da Ribeira de Frades. A minha mãe chama-se Isabel e é filha do conhecido José Rito (falecido). A minha mãe diz que gosta muito de os ouvir tocar, nunca desistam. A minha mãe gosta muito de ouvir tocar o Chico Gato. Continuem.




 


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