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Exposição: “Saber ouvir, virtude de poucos”
Os colectores de Música Popular Portuguesa


O convite da Associação José Afonso, em 2002, para realizar uma pequena exposição no âmbito das XIII Cantigas de Maio, fez-me pensar de que forma poderia ser útil a um público que gosta de música e se interessa por afirmações culturais e identitárias, quase ignoradas pelos grandes meios de comunicação. Sei que hoje há novas formas de comunicar, na Internet e em publicações independentes que souberam conquistar um novo público, caracterizado por uma cada vez maior capacidade de decidir o que quer ver, fazer e ouvir. Lembrei-me então de reunir algumas biografias de colectores de música popular portuguesa, feitas para a “Enciclopédia da Música do Século XX”, uma publicação coordenada pela Professora Salwa Castelo Branco e com publicação prevista pelo Círculo de Leitores (cerca de 1350 entradas em dois volumes) e parcialmente (200 entradas) numa página na Internet do Instituto Camões.

Trata-se de uma significativa mudança na forma de tornar acessível informação fundamental ao conhecimento da música portuguesa, seguindo os bons exemplos que vamos conhecendo por todo o Mundo e em que as Universidades e as Instituições assumem, de forma consequente, o papel de formadores e divulgadores de informação que esteve demasiado tempo circunscrita aos círculos académicos.

Pensei também aproveitar a oportunidade para propor à Associação José Afonso a edição de um CD com gravações de Catarina Chitas, cantora de Penha Garcia, Idanha a Nova, reunindo registos feitos desde 1964 com equipamentos amadores, o que se compreende por não haver a intenção da sua publicação, à época da recolha. O tempo encarregou-se de nos mostrar que valia a pena recuperar, com os recursos técnicos de que hoje dispomos, esses registos em que Catarina Chitas está na plena posse do seu repertório. Demos-lhe um título ambicioso, “Catarina Chitas – uma lição de bem cantar”, por acreditarmos estar perante uma das mais fecundas criadora e intérprete do repertório da Beira Baixa.

O conhecimento de Catarina Chitas e da sua vida exemplar foi-nos facilitado por uma longa amizade com a artista e pelo acesso a um texto que nos foi enviado por Amélia Fonseca, do grupo de Adufeiras de Monsanto, com um artigo de António Silveira Catana, “Catarina Chitas – Um livro aberto da Cultura Tradicional da Beira Baixa”, publicado no Jornal Raiano, edição de 18 de Abril de 2.002, a melhor síntese que conhecemos sobre Catarina Chitas, pela informação detalhada e esclarecedora de um percurso ímpar na Cultura portuguesa.

Caberá agora dizer quem são os colectores e de que forma o seu trabalho foi e é importante para quem quer conhecer as práticas e saberes dos músicos, mesmo quando estes apenas o são por alguns dias no ano, nas festas e cerimónias em que participam. Fazendo o paralelo com os bons fotógrafos, há que saber ver, procurar o enquadramento certo, respeitar o objecto ou situação que se quer documentar, e estar lá quando a música acontece. Podem parecer estranhas estas preocupações a uma geração que já cresceu num país onde as Faculdades de Ciências Humanas formam centenas de jovens, os meios de comunicação têm com regularidade artigos feitos por especialistas nesta área e são publicados estudos e artigos com regularidade.

Nem sempre foi assim, e por isso temos de compreender quem eram os colectores que antes de 1980 percorreram o país, registando como podiam o que pensavam dever ser guardado. Bem ou mal, com lacunas que hoje lamentamos mas não podemos resolver, é-nos hoje possível conhecer práticas musicais porque alguém estava lá e tinha os meios para registar o que via e ouvia. Caberá aqui apelar para alguma humildade na avaliação de quem fez esses trabalhos, e aconselhar tentar conhecer as circunstâncias e contextos em que essas pessoas viveram. Como sempre, é uma questão de estudo bem feito.

Poderá parecer que tenho alguma fixação doentia no que é antigo, como muitas vezes me perguntaram quando procurava documentar algumas práticas musicais. Não é o caso, mas nem sempre os colectores conseguiram compreender que as pessoas com quem conversavam, só lhes davam o que pensavam interessar ou mesmo, em alguns casos, não revelavam determinadas práticas por julgarem que as mesmas não tinham interesse ou podiam mesmo revelar formas de comportamento que podiam ser mal aceites pelos senhores da cidade.

As populações rurais viviam no que se refere às práticas culturais num estado de natureza de grande fragilidade perante juízos de valor de autoridades civis e religiosas, sem qualquer possibilidade de dominar as profundas mudanças operadas a partir da década de 1930 no país. Estávamos ainda muito distantes dos dias de hoje em que podemos falar de um estado de consciência decorrente de uma escolha só possível pela facilidade acrescida de acesso a informação de qualidade, com instrumentos que se adquirem no Ensino Básico.

Os grupos musicais ou os intérpretes e criadores actuais foram todos à escola, já ouviram mais música em 5 anos de vida do que os seus pais em 30 e os seus avós uma vida inteira, frequentaram escolas, bandas e conservatórios de música, e têm dificuldade em aceitar as normas de funcionamento dos grupos e ranchos que não souberam acompanhar a mudança referida. Nos nossos dias a apropriação de práticas é um processo de descoberta, deliberado e dependente da vontade de quem o faz, facilitado embora por sentimentos de pertença a grupos que têm projectos complexos de funcionamento e afirmação.

Acredito que há muito a aprender nas obras de alguns dos colectores que iremos referir. Vale a pena procurar os seus livros nas Bibliotecas que felizmente já existem por todo o lado, ouvir as gravações e ver os filmes. Não há outra forma de aceder a esse conhecimento. Para abrir o apetite de quem quer dar esse passo, deixo-vos um texto autobiográfico de Ernesto Veiga de Oliveira e a referência a duas das suas obras fundamentais:

Nasceu na Foz do Douro (Porto) em 1910 oriundo pelos quatro costados de famílias nortenhas — do Minho, de Trás-os-Montes, Douro Litoral, e até da Galiza, mas de vivência, educação e hábitos cosmopolitas. Fez o liceu na sua cidade natal, e formou-se em Direito em 1932 — e mais tarde, em 1947, em Ciências Históricas e Filosóficas — em Coimbra.
Advogou durante dois anos, mas em breve se compenetrou do seu desajustamento irredutível a qualquer profissão que não viesse ao encontro do que para ele eram os valores essenciais do Homem e contrariasse a livre expansão da sua personalidade; e após sucessivas experiências, ingressa, em 1944, no funcionalismo público. Um versejar juvenil, de fôlego curto; um filosofar fora de escolas; um panteísmo sem deuses — e, a par disso, uma grande independência de espírito, de atitudes, de credos; e o imperativo da verdade, da liberdade, da mais límpida simplicidade —, modelariam o seu pensar, a sua visão do mundo, e a sua maneira autêntica de estar na vida.

E aflorariam também num profundo amor pelo povo e no apelo das paisagens e das coisas naturais, que o levariam a calcorrear, a pé, extensas regiões do Pais—uma terra ainda fora do presente, virgem de estradas, de turismo, de poluições: o litoral, do rio Minho ao Tejo; as praias desertas do Algarve; as remotas áreas fronteiriças de Castro Laboreiro ao Gerês e Larouco; a Terra Fria transmontana, de bravios, estevas e lobos; as serras e os rios — atardando-se nas aldeias, empapando-se da sua cultura e assimilando-a. em longa vivência contemplativa participante.

Em 1932 situa-se o seu encontro com Jorge Dias, a quem fica ligado até ao fim por uma profunda e inalterável amizade, feita de entendimento, admiração e confiança; e passam a ser companheiros certos dessas andanças pelo País e dialogantes de todas as aventuras do espírito, juntamente com Fernando Galhano, amigo de longa data, com Margot Dias, e com Benjamim Pereira, que conhece mais tarde. E são finalmente esses elementos que em 1947 o grande mestre chama para formar o grupo pioneiro que deu corpo ao Centro de Estudos de Etnologia, que iria levar a cabo a renovação dos estudos etnográficos em Portugal. Demitiu-se então das suas funções burocráticas, e abraça — definitivamente e profissionalmente — a carreira de investigação cientifica.

A partir dessa data, a sua vida identifica-se com os trabalhos desse Centro, e seguidamente, a partir de 1963, também com os do Centro de Antropologia Cultural e sobretudo do Museu de Etnologia, criado segundo uma concepção inovadora da museologia, que restará como a expressão mais acabada da sua obra.

Em 1965 é nomeado subdirector do Museu de Etnologia e, de 1973 em diante após o falecimento de Jorge Dias, toma a direcção do Centro de Estudos de Antropologia Cultural e do Museu de Etnologia, mantendo-se nesse posto até 1980, data da sua aposentação. Naquela mesma ocasião, assumiu a direcção do Centro de Estudos de Etnologia, que ainda conserva.

Em 1984 a Universidade de Évora confere-lhe o titulo de Doutor Honoris Causa. De 1973 a 1978 integrou o corpo redactorial da Revista Ethnologia Europaea. Fez parte do International Secretariat for Research on the History of Agricultural Implements.

Oliveira, Ernesto Veiga de (1984) Festividades ciclicas em Portugal. Lisboa: Publicações Dom Quixote
Oliveira, Ernesto Veiga de (2000/1982/1966) Instrumentos musicais populares portugueses. Lisboa: FCG/ MNE

Espero ter conseguido despertar a vossa curiosidade. Nada se faz sem esforço e vivemos tempos em que ler um livro, ir a uma mediateca para ver um filme ou ouvir uma gravação necessitam de alguma força de vontade e decisão. Mas vale a pena.

Domingos Morais (2006)







 


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