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Oficina de
Concertina no Tocar de Ouvido - edição de 2006.
Tocador: Manuel
Gomes Vale
O Sr. Manuel
Gomes Vale é dos Arcos de Valdevez (interior do Alto Minho), onde
predominam a Chula e a Cana Verde.
Começou a "rachar" a Concertina, aos 5 anos, à lareira, tentando
acompanhar o seu pai que tocava o Harmónio (concertina de uma fila).
Esteve emigrado nos Estados Unidos e nunca deixou a concertina - por lá,
foi colaborando com diversos grupos folclóricos portugueses.
Esta ausência permitiu-lhe manter o toque da concertina no estilo mais
tradicional e preservar algum repertório mais antigo, como a Cana Verde
do Vale, o Esse, a Serrinha, entre outros.
A sua família perpetuam a tradição: filho e neta também tocam a
concertina.
Actualmente reformado, toca no grupo folclórico local e marca presença
nos encontros de tocadores de concertina, actualmente muito em voga no
Minho.
Pivot: Artur Fernandes
Artur
Fernandes é um músico com um percurso rico, que inclui inúmeras
participações em vários projectos. É o mentor artístico do projecto
"Danças Ocultas"; participou em grupos como os 4Portango, Orquestra dos
Sons da Lusofonia e Fou-Nana e ainda musicou produções de cinema (
"Mortinho por Chegar a Casa", C. Silva e G. Sluizer) e Teatro
("Nocturno" e "Um Sorriso", Acto - Estarreja). Possui Licenciatura
em Composição pela Universidade de Aveiro. É Professor no Instituto
Piaget de Viseu nos cursos Licenciatura em Ensino de Música e
Professores de Educação Musical. Dedica-se ao ensino de Concertina desde
1986 e na "d'Orfeu - Associação Cultural", de Águeda, desde 95/96.
Sobre a Concertina
O instrumento
chinês Cheng, que foi introduzido na Europa em 1777, parece ter estado
na origem das ideias utilizadas para o desenvolvimento da concertina.
Em 1921, Haeckel em Viena e depois Buschmann na Alemanha inventaram
instrumentos para soprar com a boca com palhetas livres. Buschmann
adicionou foles um teclado de botões no ano seguinte, para poder ser
tocado com as mãos, tornando esse instrumento como o primeiro
antepassado reconhecível da concertina. Finalmente, em 1929, Cyrillus
Damian, um construtor de instrumentos radicado em Viena, adicionou
acordes no baixo, e patenteou este instrumento como acordeão
(Paralelamente, Sir Charles Wheatstone patenteou a concertina
em 1829 e Heinrich Band em 1940 inventou o Bandonioni).
O Acordião de Demian chega um ano depois a Paris, onde numerosos
construtores o vão melhorando durante o Séc.XIX, salientando-se várias
fases: a substituição de acordes por sons simples em cada botão; o
aparecimento do acordeão misto, em que alguns botões dispunham de um som
a fechar e outro a brir, enquanto que outros botões produziam um som
único; e, o aparecimento do Acordeão de teclado (cópia do teclado de
piano).
A partir do Acordeão misto derivam duas vertentes: uma que vai dar o
Acordeão de botões com um som por cada botão, e outra, que vai dar
origem ao Acordeão Diatónico composto por uma, duas, ou três carreiras
de botões com a emissão de dois sons por botão, conforme o movimento do
fole.
Enquanto que os Acordeões de teclado e de botões dispõem usualmente, na
mão esquerda, de sessenta, noventa, ou cento e vinte botões de baixos, o
Acordeão diatónico dispõe somente de quatro, oito, ou doze, conforme tem
na mão direita uma, duas, ou três carreiras, respectivamente.
Pensa-se que a Acordeão diatónico chegou a Portugal na mesma altura a
que chegou a Espanha (1873) adoptando o nome de “Concertina”. Em
Portugal designa-se por concertina o que algumas pessoas no nordeste
brasileiro chamam "sanfona" (sem distinguir por vezes a concertina e o
acordeão) e que na Irlanda corresponde a um pequeno instrumento
hexagonal, também de palhetas livres.
No sec XIX, a concertina tomou o lugar da harmónica como instrumento
favorito. Era muito popular na Estremadura, onde rivalizava com as
Gaitas de foles. Nos dias de hoje tem especial vitalidade no Minho, onde
são tocadas por ocasião dos bailes e nos cantares ao desafio.

Fig. 1 – Pinhão,
Alijó. Final da vindima, com uma tocata constituída por concertina,
bombo e guitarra.
Contexto social e musical
Hoje em dia, a
concertina substituiu em toda a faixa litoral os cordofones que antes
dominavam a música festiva e lírica de tipo recente: cantares de festa e
coreográficos alegres e vivos, “chulas”, rusgas, cantigas românticas e
satíricas, cantares de desgarrada, fados, serenatas e tunas; na região
raiana Beiroa assim como no Campo Alentejano, a concertina é usada, tal
como no Ocidente, para música lúdica e festiva: “saias”, “despiques”,
“modas” mais alegres e vivas. No entanto, hoje em dia a concertina sai
da esfera estritamente lúdica e aventura-se em ocasiões sagradas. De
resto, com a carência da obrigatoriedade estrita e a progressiva quebra
de força da velha tradição, podemos hoje ver a concertina (que conhece
maior difusão que a viola) em ocasiões cerimoniais onde há pouco não
figurava. Por exemplo, em Creixomil, na região de Barcelos, ouvimos uma
primeira parte de uns cantares de reis onde as vozes cantam a pedir o
donativo, de uma forma grave e austera, com a concertina a sublinhar a
linha melódica.
Actualmente, por toda a parte, os cordofones tradicionais vão sendo
postos de parte, aparecendo a par deles, ou em sua substituição, a
concertina e o acordeão. Na faixa litoral do alto Minho, por exemplo,
pode-se mesmo dizer que o único instrumento que hoje se ouve nas rusgas,
bailes de terreiro, romarias e outras festas, é a concertina.
Na Serra duriense, nas tocatas que acompanham a dura faina da vindima,
está presente a concertina. Mais tarde, durante o bailarico e festa
final da “entrega do ramo” aos patrões (fig. 1), esta tocata consegue
suscitar a atmosfera lúdica dessa duríssima quadra.
Especificidades
técnicas do instrumento
Trata-se de um
aerofone de palhetas livres que são accionadas por meio de um fole que
une os dois teclados. O teclado da mão direita produz as notas, enquanto
o teclado da mão esquerda produz os acordes e baixos de acompanhamento.
É um instrumento largamente difundido na música de raiz tradicional e
Popular Europeia, embora tenha surgido apenas no princípio deste século,
depois de construtores alemães terem transformado os seus primórdios
chineses, nomeadamente na utilização de palhetas metálicas.
Este instrumento tem a particularidade de emitir notas distintas quando
se prime uma tecla e se acciona o fole em cada sentido, o que o
distingue do acordeão (que emite sempre o mesmo som, independentemente
do sentido com que se acciona o fole).
São muitos os instrumentos que funcionam a partir de palhetas simples,
duplas ou batentes (saxofone, clarinete, oboé, fagote, órgão, palheta).
Ao contrário dos outros tipos de lamelas vibrantes, a palheta livre
move-se livremente no ar graças à sua elasticidade: ela não vibra contra
nenhum suporte.
A palheta livre
metálica é o princípio sonoro da concertina (fig. 2). Esta palheta é uma
lamela de cana ou metal, onde uma extremidade está fica e a outra vibra
sob a pressão do ar que circula pela acção do fole. Ela está fixada por
uma das suas extremidades num suporte de madeira (chassis) onde foi
perfurada uma abertura: a janela. No interior desta, sob a pressão do ar
que vem do fole, a palheta desloca-se para um e outro lado do seu eixo,
provocando uma vibração que está na origem do som da concertina. A
alimentação do ar é feita alternadamente, de acordo com o movimento de
abertura ou de fecho do fole, que faz com que o ar de um lado ou do
outro do suporte de madeira; como a palheta apenas vibra do lado onde
ela está fixa: é por isso que na concertina sendo estas duas palhetas
diferentes, o som emitido a fechar ou abrir o fole é também ele
diferente. A pele de couro evita eventuais vibrações parasitas da lamela
que não está a vibrar. A palheta é afinada com a ajuda duma lima (quando
se lima a base, o som fica mais grabe; quando se lima a extremidade o
som fica mais agudo).
Afinação
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| Fig.
3 - Concertina de duas carreiras |
As
primeiras concertinas tinham apenas dez botões do lado direito. A cada
botão correspondem pelo menos duas palhetas (e podem chegar a ser dez)
com notas diferentes no abrir e no fechar do fole. Os baixos e os
acordes relevantes são a raiz da escala no fechar do fole e a quinta do
acorde no abrir do fole.
As concertinas podem ter uma fileira de botões, com dez botões. Dada a
característica da concertina, a estes dez botões correspondem 20 notas
diferentes, dez no abrir do fole e dez no fechar do fole. A uma fileira
correspondem apenas dois botões de baixo (lado esquerdo), com dois
acordes e dois baixos. Da necessidade de tocar em diferentes tonalidades
(de forma a se poder tocar com outros instrumentos), surge a concertina
com duas fileiras (fig. 3) de botões do lado direito e oito baixos do
lado esquerdo. A cada fileira corresponde uma tonalidade, podendo a
concertina estar em Sol–Dó, Dó– Fá, ou qualquer combinação que o
construtor ou o tocador tenham ensejo de tocar. Com três fileiras o
esquema repete-se, podendo a ter concertinas em Sol – Dó – Fá, Ré – Sol
–Dó ou qualquer outra afinação. Neste caso, esta concertina tem
normalmente doze baixos. Outras concertinas, como por exemplo a
concertina italiana, tendo por base duas fileiras, têm algumas notas
suplementares numa terceira fileira (cinco ou seis botões) que são as
alterações cromáticas, permitindo ao tocador uma vasta gama de
tonalidades e opções interpretativas. Hoje em dia muitos tocadores pedem
afinações muito específicas ao construtor, de forma a que o instrumento
se adapte às suas necessidades e criatividade.
As concertinas mais comuns na música popular portuguesa são normalmente
afinadas em Sól-Dó. Por exemplo, no caso da música cabo-verdiana é mais
comum encontrar concertinas com afinação em Fá-Dó.
Técnica do tocador
O teclado
principal, tocado com a mão direita, produz as várias notas (numa escala
diatónica, ou seja, só com os tons principais) enquanto o teclado da mão
esquerda produz os acordes de acompanhamento.
A mão direita: a mão direita toca num teclado de botões, que fazem a
melodia.
A mão esquerda toca os baixos e os acordes, podendo também operar o
botão do ar. O pulso esquerdo passa pela correia dos baixos permintindo
ao braço esquerdo movimentar os foles. A concertina é sustentado pelo
tocador através de tiras de cabedal, que facilitam o suporte do
instrumento. Na maior parte das vezes o instrumento é tocado sentado.
(Extraído e adaptado
do Livro “Instrumentos Musicais Populares Portugueses” de Ernesto Veiga
de Oliveira e Benjamim Pereira - Gulbenkian 2000).

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