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Tocar de Ouvido
> Projecto
Encontro de Tocadores
Portugal passado, presente e
futuro
Portugal é hoje muito diferente do que era há 30 anos atrás.
Para lá de polémicas reavivadas sobre o passado recente do país, hoje
em discussão ruidosa e porventura pouco útil, quase todos sentem que
este mudou profundamente. Depois do 25 de Abril de 1974, veio a
democratização, a rápida modernização e alfabetização do país e a
entrada na União Europeia. Sentiram-se melhorias palpáveis nas condições
de vida de todos, em maior ou menor grau; cresceram ainda mais as
cidades, mudaram para sempre os campos. Portugal faz hoje parte da
globalização, para o bem e para o mal.
Nos tempos que correm, algumas pessoas, oriundas de diversos campos e
formações debatem uma questão premente e actual: que identidade tem
Portugal hoje, num contexto europeu e globalizado?
E sobretudo, que identidade musical têm hoje os portugueses, os de antes
e os de agora? Que instrumentos tocam? Que músicas cantam?
Qual é a música das aldeias? Qual é a música das cidades? E onde está
essa música, hoje? Quem a toca e quem a quer aprender?
Enquanto que muitos outros países europeus incluem a sua música popular
no currículo dos conservatórios e das universidades, em Portugal esse
ainda é um sinal de progresso que avança devagar e de forma incipiente -
um facto paradoxal num país com 900 anos de História, por onde passaram
tantos povos e influências, com tantas formas musicais.
O projecto Encontro de Tocadores surgiu em 2002, quando várias
associações e pessoas que se dedicavam à música e dança "tradicionais"
se uniram para realizar um evento onde estes temas estivessem presentes
e onde se pudessem problematizar estas questões, de uma forma prática,
criativa e com consequências no futuro - sem folclorismos empobrecedores
de má memória ou uma visão arcaísta e preconceituosa das práticas
musicais populares.
Mais do que reflectir sobre os processos de mudança que se viveram e
vivem hoje, ou cair na ladainha estéril de lamentar a perda das raízes e
as inevitáveis mudanças, o objectivo é fazer - fazer acontecer música.
Pôr em contacto dois universos distantes: os Tocadores que ainda hoje
fazem música, a música das aldeias, a música dos pais e avós, com os
tocadores mais novos; os tocadores das cidades, aqueles que já nasceram
perto da Internet, dos telefones móveis, da MTV, do Walkman e do leitor
de mp3, dos Conservatórios e das escolas de música - de universos
musicais diferentes, em suma. E que todavia querem saber mais sobre os
Tocadores que os precederam, tocar as suas músicas, ouvir as suas
histórias e aprender com eles.
Em cada oficina, um Tocador transmite os seus conhecimentos mais bem
guardados: os truques do ofício, os materiais dos seus instrumentos,
aquela "moda" preciosa cheia de riqueza musical insuspeitada - mas
também a sua história de vida, como e quando começou a tocar, quem o
ensinou e para quem tocava. Histórias de Tocadores individuais que são
muitas vezes o retrato de um país e da sua identidade colectiva.
Acompanhando-o em cada oficina está também um pivot; um músico urbano,
bom conhecedor dos cânones de uma educação musical formal, que se
encarrega de "traduzir" algumas convenções musicais, próprias do
universo dos Tocadores, com as quais muitos alunos tomam contacto pela
primeira vez.
O seu papel é também o de apoiar o trabalho de todos, incentivando-os a
descobrir o melhor de cada música, de cada forma de tocar; na subtileza
dos gestos, ritmos e sensibilidade, que se percebem "naquele jeito de
tocar" que identificamos como único - e que nos traz afinal, tanta
riqueza musical.
O Tocar de Ouvido - Encontro de Tocadores é isso mesmo; um espaço onde
se (re)descobre um país: o país que já pouco existe, o país que é hoje e
sobretudo, o país musical que será criado amanhã. Sem saudosismos
preconceituosos, apenas vontade de criar, mantendo o cunho identitário
que faz da música portuguesa uma música diferente de todas as outras.
Uma atitude cosmopolita que valoriza o que há de bom na música dos
Tocadores.
Crescer musicalmente, dentro e fora das fronteiras de uma identidade que
sentimos como nossa, é o objectivo.

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