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António Ribeiro
Toni das Gaitas

Em Janeiro de 2000, numa noite gélida e enevoada, demandámos à residência de António Ribeiro - o "Toni das Gaitas" - gaiteiro a residir provisoriamente algures na Travessa da Prelada, no Porto, por força de uma vida de músico andarilho e de palhaço circense. Pai de uma boa meia dúzia de filhos e de filhas, todos tocadores de gaitas de foles e de outros instrumentos, muitos dos quais também se dedicando a actividades musicais e circenses.

Um dos aspectos mais relevantes da personalidade musical de António Ribeiro, resulta directamente do facto de as suas actividades musicais se repartirem pelas mais variadas formas de expressão: do tradicional conjunto instrumental de gaiteiros (gaita de foles, caixa e bombo) até aos emblemáticos grupos de zés-pereiras do Alto Minho e da zona sul do Târnega (que António Ribeiro organiza, quando necessário, mobilizando para tal a família), passando por grupos organizados para corresponder a solicitações de animação de festas em agremiações e colectividades populares. Homem de todos os ofícios e profissões, vim a descobrir que, afinal, é homem de uma só profissão ( de uma profissão de fé ) e pagador de uma promessa devida à terra que o viu nascer: a missão de defender, conservar e reavivar uma das nossas mais belas tradições. 

Na conversa que mantivemos em sua casa ao calor de um fogo que ardia prodigamente na lareira, a surpresa aconteceu: este homem que é gaiteiro, palhaço, clarinetista, flautista, fabricante artesanal de gaitas de foles, bombos, caixas, gigantones e cabeçudos; era filho não perfilhado, outrora dito "ilegítimo", de um conhecido gaiteiro de Vale de Prados (Trás-os-Montes). “Que se chamava José Benedito Lage, mas eu não vou a Lage porque nunca fui perfilhado”, explicou com indisfarçada mágoa. E acabámos por ficar a saber que António Ribeiro era primo de Ezequiel dos Santos (igualmente gaiteiro), cujos bombos e caixa tinham sido feitos por António Ribeiro.
Foi assim que soubemos que seu pai, falecido em 1965 ou 1966, fora o célebre e lendário gaiteiro José Benedito, nome que os anais históricos de Trás-os-Montes (e outros, obviamente) não poderão deixar de registar para a posteridade, realçando o seu papel de embaixador de Portugal, ao acompanhar o general Carmona na sua visita oficial à Inglaterra e à Escócia.

José Benedito

A exemplo de casos semelhantes relatados um pouco por toda a parte, em especial em terras de tradições gaiteiras e onde as histórias de gaiteiros constituem, por assim dizer, parte do espólio histórico da região, também José Benedito iria ser protagonista principal de uma aventura singular. 
Dele se conta que, ao atravessar os montes de Sonim (Valpaços) para ir a uma povoação próxima, levar alguma comida e bebida a um grupo de gaiteiros que ali tocava, foi surpreendido no caminho pelos lobos. Na ideia de que poderia aplacar-lhes a lupina voracidade, foi distribuindo a comida a uns e outros, mas depois da última, os lobos continuavam a fitá-Io, sem darem indícios de estarem saciados. Sentindo-se perdido e imaginando-se já pasto das feras, decidiu morrer dignamente, ou seja, a tocar a gaita, sua velha e fiel companheira. Conta-se que os lobos fugiram assustados. Apesar do estado de choque e da perda da fala durante duas semanas, José Benedito conseguiu salvar a vida.

José Benedito deixou dois excelentes continuadores da sua arte e talento: se Ezequiel dos Santos continua a ser regularmente requisitado para as populares Festas dos Reis em Vale Salgueiro, em terras de Mirandela, onde aquele mítico gaiteiro era presença indispensável, recriando um repertório antigo particularmente do agrado das gentes, António Ribeiro passou a marcar presença assídua na procissão do Corpus Christi, em Penafiel, como gaiteiro do emblemático "Baile dos Ferreiros", do mesmo modo assegurando a continuidade do repertório. 

Os primeiros passos

Aos 6 anos de idade, de caixa ao ombro e baquetas na mão, António Ribeiro começou a acompanhar o pai nas suas digressões pelo país e a alegrar festas e romarias em Lisboa, no Alentejo e no Algarve. De bom grado ia cumprindo a tarefa atribuída, mas sonhava com o dia em que pudesse também tocar a gaita, como o pai. O sonho viria a cumprir-se. 
Aos 12 anos, foi convidado para tocar a gaita na revista "Rapsódias Portuguesas", em cujo elenco havia nomes como Amália Rodrigues, Bártolo Valença e Max, o alegre autor do "Bailinho da Madeira" e da "Mula da Cooperativa". O convite foi aceite, mas punha-se o problema de ser menor de idade, pois segundo a legislação em vigor, António Ribeiro não podia actuar em espectáculos públicos. Mas nem ele nem os organizadores eram gente para se ralar com semelhante insignificância. Assim, vestido com roupa larga e de bigode postiço debaixo do nariz, o nosso pequeno António Ribeiro tocou a gaita na revista e recebeu, como os outros, os aplausos do público.

Serviço Militar

Em 1962, embarcou no combóio com destino a Braga, para cumprir o serviço militar e como não podia deixar de ser levou a gaita debaixo do braço. Certo dia, na companhia de vários camaradas, tocava a "Laurindinha" na parada do quartel, quando repentinamente, viu surgir de uma porta o comandante do regimento. Ao ocorrer-Ihe que estaria a infringir gravemente a disciplina militar, correu a esconder a gaita no meio de uns sacos de batatas e voltou para onde estava. Mas o comandante não vinha repreender o gaiteiro, mas sim para o ouvir e para o aplaudir.
Uns meses mais tarde, cumprido o tempo de recruta, é destacado para o RASP2, em Vila Nova de Gaia, e, como é fácil adivinhar, em pouco tempo está integrado na sua fanfarra militar. Ao lado dos clarins, clarinetes, caixas e bombos, António Ribeiro faz soar orgulhosamente a gaita. Mais tarde, compradas expressamente pelo regimento, viriam outras gaitas. Com efeito, o então comandante da Região Militar, Luís Teixeira da Mota, tinha autorizado oficialmente o uso de gaitas nas fanfarras militares. É assim que a gaita conquista o direito, aliás legítimo, de abrilhantar as cerimónias de despedida aos soldados que partem para o Ultramar.
A popularidade e o prestígio de António Ribeiro não cessam de aumentar. Além da gaita, mostra ser capaz de dominar outros instrumentos, em especial a requinta (nome que ele dá ao clarim de ordens, de menores dimensões e de timbre mais agudo). Em breve, é chamado a tocar as alvoradas. 
O tempo passa, o serviço militar chega ao seu termo e António Ribeiro passa à disponibilidade.

África

O homem que tantas despedidas tinha feito aos que partiam, iria também embarcar para África. Não já como militar, visto não ter sido mobilizado, mas como artista do Circo Mariano, que partia em digressão para aquelas paragens. Por lá andou, de Angola foi para Moçambique, daqui para a África do Sul, sempre acompanhado da gaita. e agora também do clarinete.. Homem de sete ofícios, desempenhou papéis de palhaço e malabarista, montou, desmontou e voltou a montar, as grandes tendas do circo e quando as rajadas furiosas de ventos e vendavais ameaçavam varrer tudo, passou noites inteiras a velar pela sua segurança.

Gaiteiros Nacionais

Em 1974, regressou definitivamente e foi fixar-se nos arredores do Porto, na Senhora da Hora. O Circo Mariano, que tinha chegado ao fim dos seus dias, já não lhe podia garantir o sustento diário. Assim obedecendo aos velhos impulsos, começou a formar gaiteiros e a constituir grupos de gaitas e percussões, para animar festas e romarias. Assim nasceram os Gaiteiros Nacionais, agrupamento que chegou a ter 58 elementos. Todos os seus filhos, catorze ao todo, tocam a gaita, rufam na caixa e percutem o bombo. 
Falta falar de António Ribeiro como construtor de instrumentos tradicionais. Várias das gaitas usadas pelos Gaiteiros Nacionais foram construídas por si, tal como as caixas e os bombos, e as peles foi ele quem as curtiu. A qualidade e a perfeição desses instrumentos estão à vista.
Mais do que um gaiteiro, de tão reconhecido como surpreendente virtuosismo, numa arte da qual conserva os traços e cânones essenciais da tradição, António Ribeiro é um excelente exemplo de Cultura Popular sobrevivente no seio da "grande cidade", trazido pelas correntes migratórias que geraram quer movimentos de integração quer focos de exclusão. Rebelde e marginal quanto baste, António Ribeiro é uma verdadeira "ilha" de criatividade expressiva da mais autêntica Cultura Popular que a cidade deve revelar e, como tal, valorizar.

Texto: Excerto do livrete do CD "António Ribeiro - Toni das Gaitas" - Colecção "Gaiteiros Tradicionais" nº8 - Mário Correia / Sons da Terra, 2000
Fotos: APEGDF
 


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