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INTRODUÇÃO
Este trabalho é uma
reflexão teórica sobre a forma de afinar a
gaita. Mais exactamente, sobre que tipo de escala
escolher para afinar o instrumento. Os músicos
actuais estão habituados a utilizar a
escala temperada para afinar os instrumentos, e os
afinadores electrónicos, que muitos de nós usamos,
ajudam-nos a conseguir esse tipo de afinação. No
entanto, esta escala não é a única possibilidade
de afinação existente.
A escala da gaita não
é, de facto, completamente temperada.
A terceira
nota da escala, (o Mi para as pessoas acostumadas
a escrever em Dó, ou o Fá# para os de Ré), é mais
grave do que mostra o afinador. Tem que ser assim,
para que afine com o ronco porque se a colocamos no
tom que nos exige o afinador, notamos em seguida que não afina
com o ronco, nem com a gaita do companheiro quando tocamos em
duo. Ao longo deste artigo explicaremos porque é que isto
ocorre e também porque é que os sons afinam uns com
os outros. Partindo destas ideias, estudaremos como
definir um tipo de escala que consiga a máxima
afinação entre os instrumentos que a
utilizem. Compararemos esta escala com a temperada e
veremos quais são as suas vantagens e inconvenientes e as
possibilidades de utilizá-la na gaita.
Para seguir os
raciocínios que aquí são expostos, há que partir
de conceitos de acústica musical e harmonía.
Procurámos que este documento possa ser entendido
pela maioria das pessoas interessadas na gaita, ainda que não
tenha grandes conhecimentos dessas disciplinas, por isso as
explicações partem do mais básico. Muitas questões explicam-se
de forma simplificada, porque a extensão de um trabalho como
este é limitada, e porque não é necessária uma explicação
ampla, nem muito rigorosa, para entender a linha de raciocínio
que se expõe neste trabalho. Na bibliografía, que se inclui no
final do trabalho, indicam-se os livros que foram utilizados
para prepará-lo e que se podem consultar para aprofundar o
que expomos aqui. 
CONCEITOS BÁSICOS SOBRE SOM E
AFINAÇÃO
O som é uma vibração do ar que nos
rodeia. O ar, como todos os gases, pode comprimir-se
e expandir-se, quer dizer, ocupar mais ou menos
espaço. Isto ocorre quando aplicamos uma força sobre
ele, quando o submetemos a pressão, ou reduzimos a
pressão a que está submetido. Um exemplo é o que ocorre com o
ar encerrado dentro de uma seringa com a ponta fechada e o
êmbolo na metade do seu comprimento. Se apertamos o êmbolo,
fazemos com que o ar ocupe menos espaço. Cada vez faz falta
mais força (mais pressão) para que o êmbolo continue a baixar.
Se o puxamos, conseguimos o efeito contrário: o ar ocupa agora
um espaço maior, expandiu-se, e portanto, está a
baixa pressão.
Os objectos que produzem sons têm a
capacidade de criar alterações de pressão no ar que os rodeia,
geralmente porque se movem. Quando se toca a corda de
uma guitarra, começa a mover-se de um lado para o
outro, a vibrar. Este movimento tem o mesmo efeito
que o do êmbolo da seringa: o ar vê-se alternadamente
comprimido e expandido por causa do movimento da
corda. O ar que está em redor da corda é livre, não
está fechado como o da seringa. Nestas condições, as
alterações de pressão podem mover-se dentro do espaço
vizinho, como as ondas se movem na superficie de um tanque
quando se atira uma pedra para a superfície da água. Estas
alterações da pressão, estas vibrações do ar, é o que chamamos
som. No ponteiro, a origem do som está na vibração
das lâminas de madeira ou cana que formam a palheta, que são
amplificadas no interior do ponteiro e, por último, saem para
o exterior.
Estas alterações da pressão chegam até ao
nosso ouvido e através de um mecanismo muito complexo,
transformam-se em impulsos nervosos que o nosso
cérebro interpreta como sons. Este é, muito resumido,
o mecanismo de producção e recepção dos
sons.
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| Figura 1: Reprodução
num ecrã de computador onde se pode observar a forma de onda
do som de uma gaita, a nota Ré de um ponteiro em Dó.
Como é uma onda periódica, o padrão repete-se continuamente. Na imagem surgem 9 dessas repetições. |
Actualmente, graças à electrónica, é mais fácil
estudar os sons e também “vê-los”. Os microfones têm
como função transformá-los em variações de voltagem
eléctrica (são como ouvidos artificiais), e
logo, podem manipular-se de muitas maneiras (por
exemplo, convertê-los de novo em sons muito mais
potentes, através de um amplificador e altifalantes).
É bastante simples medir e ilustrar essas variações
de voltagem no monitor de um computador que
esteja equipado com um programa adequado.
O que se vê
na Figura 1 é um gráfico em que está representado o
som de uma gaita tocando um Ré.
As subidas e descidas
da linha representam as subidas e descidas da pressão
que chega até ao microfone, a forma do som. A onda de som
da gaita parece bastante complicada, mas se tomarmos
atenção, daremos conta de que é composta por um mesmo esquema
que se vai repetindo continuamente. Os picos e vales
sucedem-se uns aos outros com regularidade, mantendo
as mesmas posições entre si. A este tipo de
ondas chamam-se periódicas, precisamente porque a sua
forma se repete durante um certo período de tempo.
Cada uma dessas repetições chama-se ciclo (ou
vibração). Todos os instrumentos de vento produzem
ondas deste tipo.
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| Figura 2: No gráfico (A) surge representada uma onda periódica de tipo sinusoidal, a mais simples de todas as que existem (compare-se com a da figura 1). No gráfico (B) mostra-se como a soma das ondas sinusoidais de frequências diferentes produz ondas de forma complexa. No caso representado, a frequência da onda do centro é o dobro da acima desta. A terceira é a onda resultante da soma das outras duas. |
Na Figura 2. é representado outro
tipo de onda periódica . É muito mais simples que a
anterior, de facto, é a onda mais simples que
se conhece. Chama-se onda sinusoidal e é a que geram
muitos aparelhos electrónicos quando tocam e alguns
pianos electrónicos de baixa qualidade ou antigos. Os
diapasões (em forma de U de metal que se golpeiam com
um maço pequeno) produzem um som deste tipo. Pode-se
conseguir que uma palheta produza um som assim se
se soprar só o necessário para que comece a soar.
Os
físicos descobriram que os sons periódicos complexos
como o da gaita, são compostos de muitas ondas
simples que soam ao mesmo tempo e também descobriram
a maneira de separar esses componentes uns dos
outros. Na parte de baixo da Figura 2.b mostra-se como a
soma das ondas sinusoidais diferentes tem como
resultado uma onda com uma forma mais complicada. No
caso dos sons musicais, soma-se um número grande de ondas e
por aí podem ter formas de onda complexas como a da
Figura 1. Esta propriedade dos sons complexos
utiliza-se nos sintetizadores para produzir electrónicamente
sons de diferentes instrumentos. Estes aparelhos têm um número
mais ou menos grande de circuitos capazes de gerar ondas sinusoidais de diferentes tipos. Se se seleccionam as ondas sinusoidais adequadas e se fazem soar todas de uma vez,
conseguem-se as imitações, por vezes muitos perfeitas, dos
instrumentos acústicos. 
COMPONENTES DO SOM:
FREQUÊNCIA, TIMBRE
E INTENSIDADE.
Seja o som simples
ou complexo, a característica fundamental de uma onda
periódica é a sua frequência. A frequência é a quantidade de
vezes que se repete a forma da onda numa unidade de tempo,
quer dizer, a quantidade de cicos por segundo. A unidade de
medida da frequência é o Hertz (Hz) que é um ciclo por
segundo. O padrão de afinação que usamos é um som de 440 Hz
(na escala média do piano), em suma, 440 vibrações
por segundo. O som da Figura 1 tem uma frequência de
580 Hz aproximadamente, e no ecrã do computador só
se veêm nove das vibrações, o que quer dizer que
o som que se vê no ecrã durou 9/580=0,016 segundos,
16 centésimas de segundo. A frequência de um som
indica-nos a sua altura, o grave ou agudo que é.
Quanto mais alta é a sua frequência, mais agudo é o som.
O ouvido humano pode captar sons que estão entre os
20 e os 20.000 Hz, aproximadamente.
Outra
característica importante de um som é o seu timbre.
Na realidade, o facto de que os sons tenham timbres
diferentes deve-se a que as formas das suas ondas são
distintas. Por sua vez, a forma das ondas é diferente
porque os sons simples que as compõem são também
diferentes. Assim, dois sons podem ter perfeitamente
a mesma quantidade de vibrações por segundo (a mesma
frequência, a mesma nota), mas a forma de cada onda
ser completamente distinta (timbres diferentes). O
ouvido percebe as diferenças entre timbres, porque
uma das coisas que faz durante o processo de audição
é decompor os sons complexos nos sons simples que os
constroem. Uma última característica de um som é a sua intensidade, que é simplesmente a força com que soa.
Quando ilustramos uma onda a intensidade é
representada pela distância máxima entre os picos e os
vales.
Na Figura 2.b, por exemplo, a onda da
parte inferior é mais intensa do que as outras duas,
sobe e baixa mais. Isto ocorre porque é a soma das
outras e, portanto, o som conjunto será mais forte
que qualquer dos individuais. Os sons dos
instrumentos musicais em geral, e da gaita em particular, têm
uma característica especial: as ondas simples que formam o seu
som têm frequências que são múltiplos da frequência mais baixa
de todas. No exemplo anterior, o Ré da gaita tem a frequência
mais baixa a 580 Hz. A esta frequência chama-se fundamental,
aliás, estão presentes sons de 1160 Hz (580 x2), 1740 Hz (580
x3), etc., todos com uma forma de onda sinusoidal. Diz-se que
estes sons são harmónicos da fundamental. Também se lhes chama
parciais. Nem todos estes harmónicos soam com a mesma
intensidade. Geralmente quanto mais agudos são os harmónicos,
menos força têm.
A distribuição relativa da
potência de cada harmónico também contribui para
formar o timbre de cada instrumento. Um
instrumento determinado não tem que produzir todos os
harmónicos possiveis. O som do clarinete, por
exemplo, só contem os harmónicos ímpares, ou seja, aqueles que
têm a frequência igual à fundamental multiplicada por um
número ímpar (3, 5, 7...). Isto deve-se ao facto do furo
interno ter uma forma cilíndrica. Os instrumentos que têm
forma cónica, como o ponteiro da gaita e os oboés,
produzem toda a serie completa de harmónicos, pares e
ímpares. 
A partir de agora falaremos dos sons
classificando-os pela sua frequência. Esta será a
característica que mais nos interessa de cada
som.
SONS AFINADOS E
DESAFINADOS
A maior parte das vezes em que
ouvimos música produz-se mais do que um som
simultaneamente. A estes conjuntos de sons simultâneos
chama-se acordes, assim, as exposições que se seguem,
referem-se a acordes. Ao ouvir dois sons simultâneos podem
ocorrer duas coisas: que o resultado seja agradável
ou que seja desesperante (em muitos graus). Se é
agradável, dizemos que ambos os sons afinam bem; e se
não, que desafinam. Os gaiteiros, com instrumentos
polifónicos, cujos sons mudam continuamente de frequência à
medida que humedecem, estão permanentemente preocupados com a
afinação. Também há que atender a que a nossa gaita afine com
a do vizinho. Agora bem, a que se deve que dois sons afinem o
não?
A resposta é muito complexa e aquí só
explicaremos as razões fundamentais.
Quando dois
instrumentos dão a mesma nota é fácil entender
porque soam bem afinados: a frequência das suas
fundamentais é a mesma e o mesmo ocorre com cada harmónico.
Todos os sons presentes encaixam entre sí, colaboram
para produzir um som mais pleno. As ondas de pressão
de todos esses harmónicos sobem e descem à vez, não há
desajustes entre eles; neste caso dizemos que os instrumentos
soam em uníssono. Se os dois sons têm frequências muito
parecidas, mas não iguais, as ondulações não ocorrem à mesma
velocidade, uma vai um pouco mais lenta que a
outra.
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| Figura 3: Duas ondas de frequência muito parecida mas não idêntica (acima e no meio), cuja intensidade sobe e baixa periódicamente como consequência do desfasamento que se produz entre elas.
Há momentos em que ambos os sons cooperam e o som resultante é potente e outros em conflito ao ponto de anular-se uma à outra. Como resultado, o volume sobe e desce com uma frequência própria que se chama frequência de batimento. |
Na Figura 3 estão representadas duas ondas
deste tipo e a onda que constitui a soma das duas. Se
ao princípio a pressão subía e descia ao mesmo tempo,
em seguida produz-se uma descoordenação entre as duas
ondas e se chega à altura em que enquanto uma onda
sobe, a outra desce,quer dizer, enquanto uma faz
aumentar a pressão, a outra a faz diminuir. Ambas as
ondas se anulam e a intensidade do som conjunto torna-se
mínima. Pouco a pouco voltam a coincidir, e a intensidade do
som vai aumentamdo. O processo repete-se uma e outra vez,
periódicamente.
É como se houvesse uma nova onda,
de frequência muito menor do que as ondas reais, que
fosse subindo e baixando o volume. Quando se produz
este fenómeno,diz-se que ambos os sons produzem
uma frequência de batimento. Quando comprovamos que dois
ponteiros estão correctamente afinados (ou o ronco
com o ponteiro), o que estamos a fazer é detectar se
os dois sons produzem frequências de batimento, em cujo
caso não estão bem afinados e há que corrigir a afinação de
um deles para conseguir que as frequências sejam
idênticas. Todavia, há outras combinações de sons que
também soam bem, apesar de não terem as mesmas
frequências. Isso deve-se ao facto de que existe a
possibilidade de que colaborem entre sí, reforçando-se quando
soam juntos, ainda que, com menos perfeição que em uníssono. É
claro que, não é válido qualquer par de sons; só aqueles cujas
frequências guardam entre si relações muito definidas e
simples podem fazê-lo. Algumas relações úteis são , por
exemplo, 2:1, 3:2, 5:4.
Vamos ver
porquê:
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| Figura 4:
Os sons que formam intervalos naturais mantêm relações próximas entre frequências. Como exemplo, em (A) representaram-se dois sons que formam um intervalo de oitava perfeita entre si. A sua relação de frequências é de 2:1, o que quer dizer que enquanto a nota grave produz oscilação, a nota aguda oscila duas vezes como se observa no desenho. O segundo exemplo, (B), corresponde a uma quinta perfeita. A relação entre frequências é de 3:2, o que quer dizer que enquanto a nota grave oscila duas vezes, a aguda o faz três vezes. |
Para explicar melhor o que se segue, preparámos
a Tabela 1 e a Figura
4. A primeira fila da Tabela
corresponde aos harmónicos de um som de 100 Hz, que
nos vai servir como a nota mais grave das duas que
formam os intervalos que vamos estudar. Escolhemos
este valor para que resultem números simples, se bem
que poderíamos ter escolhido qualquer outro. Nas dez
colunas seguintes é indicada a frequência dos
harmónicos dessa frequência fundamental.
Está incluido até ao décimo harmónico, com 1000 Hz de
frequência. Nas restantes filas aparece na primeira
coluna a frequência fundamental do segundo som e no resto, os
seus harmónicos de frequências iguais ou menores de 1000 Hz.
Aqueles harmónicos que coincidem com algum da nota base
representam-se em Bold para destacá-los dos
outros.
Na primeira fila de
dados da Tabela é representado o intervalo
de uníssono, no qual a frequência de ambas as notas é
a mesma, por isso na segunda coluna a relação de frequências é
1:1. Logicamente, todas as frequências dos parciais coincidem
e por isso o uníssono é a consonância musical mais
perfeita. O segundo dos intervalos de interesse é o de
oitava perfeita. Quando a frequência de um som é
exactamente o dobro que a de outro dizemos que são a mesma
nota, mas separada por uma oitava. Os harmónicos de um som
formam sucessivas oitavas com a fundamental. O nosso som base
de 100 Hz e outro de 200 Hz estão separados por uma oitava
completa. A relação entre as frequências dos dois sons é 2:1;
uma é o dobro da anterior (nesta forma de indicar a relação
entre a frequência de duas notas, o primeiro número
representará sempre o mais agudo dos dois). Este intervalo
também soa muito bem, porque resulta que a fundamental do som
agudo e o primeiro harmónico do som grave têm a mesma
frequência (200 Hz). Aliás, o resto dos harmónicos do som
agudo coincidem em frequência com alguns do grave, tal como se
indica na Tabela 1.
A conjugação dos sons não é tão
perfeita como no uníssono, porque agora não coincidem
todos os harmónicos dos dois sons, só coincidem os
harmónicos pares do som base (200, 300 Hz...).
De qualquer modo, a sensação de afinação é muito boa,
porque há muitas coincidências entre os harmónicos. A
relação de frequência de 2:1 quer dizer que enquanto a
frequência mais baixa oscila uma vez, a outra onda oscila duas
vezes. Isto pode ver-se na Figura 4.a.
Outro intervalo que
produz uma coincidência de frequências nos harmónicos
é o que formam as notas cuja relação de frequências é 3:2 (no nosso exemplo 150 e 100 Hz). Este
intervalo conhecêmo-lo por quinta perfeita (é o que
formam o Dó e o Sol num ponteiro de Dó, por exemplo).
Na Tabela 1 pode ver-se que continuam a
haver coincidências nas frequências de vários dos
harmónicos, concretamente, coincidem os harmónicos
pares da nota aguda (300, 600 e 900 Hz). É importante
que coincida o segundo harmónico, posto que à medida
que os harmónicos se fazem mais altos, a sua força
diminui rápidamente. No total existem três coincidências
dentro do intervalo de frequências escolhido. Todas
elas contribuem para dar uma sensação forte de boa
afinação. A relação 3:2 também nos indica que enquanto a nota
mais grave realiza dois ciclos, a mais aguda realiza três (Figura
4.b).
Na continuação aparecem dois intervalos para
os quais se produz a coincidência de um de cada três
harmónicos da nota aguda. São o de Quarta perfeita e o de Sexta Maior. Como há menos harmónicos coincidentes que no
caso anterior, a sensação de afinação é algo menos
forte que antes. Para mais, o primeiro harmónico que
coincide é o terceiro (400 Hz o da Quarta perfeita e 500
Hz o da Sexta Maior) enquanto que no caso da Quinta perfeita, era o segundo.
Algo parecido ocorre com o
intervalo de terceira maior; há duas coincidências,
mas agora é o harmónico de 500 Hz o primeiro comum aos dois
sons (5º harmónico da nota grave e 4º da aguda), pelo que, a
sensação que o ouvido recebe se vai tornando cada vez mais
débil. A terceira menor e a segunda maior só têm um
harmónico comum com a nota base: o quinto (600 Hz) e
o oitavo (900 Hz), respectivamente. A sexta menor,
finalmente, não tem nenhum harmónico comum com a nota
base abaixo dos 1000 Hz.
Há que assinalar que todos estes
intervalos são reconheciveis como intervalos afinados
por qualquer pessoa, com uma mínima educação ou aptidão musical, independentemente da cultura musical em
que viveu. Todos os sistemas musicais do mundo
reconhecem o intervalo de oitava e forma parte das
suas escalas. Esta afinação que se mostra aqui tem uma base
física, não cultural, e por isso é reconhecida por qualquer
músico como correcta. 
ESCALAS, A
SUA FORMAÇÃO E PROPRIEDADES
O que é uma
escala? Acabámos de comentar que o intervalo
de oitava é reconhecido por todos os músicos do
mundo, mas só com oitavas não se pode fazer muita
música. Cada cultura musical escolhe um certo número de
frequências intermédias, entre as que marcam o intervalo de
oitava, para utilizá-las nas suas melodias. A cada uma de elas
se chama nota, e ao conjunto, escala. O nosso sistema musical
baseia-se na utilização de doze notas (sete principais e mais
cinco intercaladas) para definir o que se denomina a escala
cromática. Ao espaço que fica entre duas dessas notas chamamos
meio tom.
No entanto, a escala mais utilizada na música de
gaita é a escala diatónica, onde todas as notas,
excepto duas, estão separadas das contíguas por dois
meios tons (ou seja, um tom). Sistemas como a música
árabe, utilizam intervalos mais pequenos (de quarto de
tom), noutros, pelo contrário, não se utilizam
distâncias menores que o tom, e resultam escalas de cinco
notas, chamadas escalas pentatónicas (próprias da música
Andina, Chinesa ou de algumas melodias espalhadas pelos
folclores europeus, por exemplo).
Agora, como se
escolhem as frequências das notas que formam
a escala? Depois de tudo o que foi dito no capítulo
anterior, parece lógico pensar que sería muito útil
construir uma escala cromática, na qual todas as
notas formassem entre si intervalos como os
descritos antes, (no restante do trabalho
referir-nos-emos a ela como escala em entoação natural para
distinguí-la de outras escalas que também falaremos).
Esta escala tería várias propriedades interessantes. Em
primeiro lugar, os instrumentos que utilizem esta escala,
poderíam formar acordes perfeitamente afinados. No caso da
gaita, isto seria interessante, mesmo no caso de tocar
sozinha, porque os acordes formar-se-iam entre o ponteiro e os
roncos.
Em segundo lugar, na maioria dos casos, o som é
reflectido nos objectos que nos rodeiam e ouvimo-lo
várias vezes, durante um certo espaço de tempo, (os
físicos chamam a este fenómeno reverberação ou, se o
reflexo se produz sobre objectos longínquos, eco). Por
este motivo ouvimos a nota que emite o músico num
instante determinado, e uma ou várias notas emitidas
imediatamente antes dessa. Também interessa que o efeito seja
o mais afinado possivel. Quando ensaiamos numa sala com muito
eco (e no nosso caso é o habitual), as gaitas soam pior,
precisamente porque os sons estão mais “vivos” e ouvimos
muitas notas simultaneamente. Algumas delas não formam entre
si intervalos consonantes e, em conjunto, o som é mais
agreste, mais desafinado do que resulta ser na
realidade.
Seguidamente, vamos ver como se constrói uma
escala cromática, utilizando intervalos naturais.
Obviamente, não o faremos em abstracto,mas tendo em
conta a música que constitui o repertório dos gaiteiros
actualmente. Isto vai revelar uma série de problemas e, ao
mesmo tempo, irá servir para compreender porque se criou a
escala em entoação temperada e quais são as suas diferenças
com a escala em entoação natural.
Para construir uma
escala com estes intervalos, estabeleceremos uma nota base
para calcular o resto das frequências. Utilizaremos
a frequência pela que se afinam os ponteiros de Dó (523,25 Hz). Todas as notas que enumeraremos são
notas reais (atenção aos que estão habituados a ler
em Ré). As frequências calculam-se multiplicando
a frequência de referência pelo valor que figura na
coluna “Relação” da Tabela 1. Por exemplo, a
frequência do Lá calcula-se como (523.25 x 5)/4
|

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Figura 5:
No primeiro passo para a construção de uma escala de entoação natural escolhemos como nota base um Dó de frequência 523.25Hz, que é a frequência segundo a qual vêm ajustados os afinadores quando o padrão é 440Hz. O resto das frequências foram calculadas a partir das relações que se discutem no texto. Em (a) representam-se as frequências e os intervalos que formam as notas com a nota de referência.
Em (b) representam-se as relações que existem entre as notas. Todas elas são intervalos de entoação perfeita. A letra "m" junto de alguns intervalos indica que são menores. Os que não levam nenhuma indicação são maiores ou perfeitos. |
O
primeiro som será o que está à distância de oitava e que marca
o limite superior desta escala. Na continuação
colocaremos os sons que estão à distância de Quinta perfeita, Quarta perfeita, Sexta maior e Terceira maior, que são os
intervalos que soam melhor. Ao mesmo tempo, os intervalos que
se formam entre estas novas notas também correspondem
à entoação natural, igual aos que se formam com
a tónica (ver Figura 5). Temos cinco das sete
notas necessárias para formar a escala diatónica.
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| Figura 6: segunda fase da construção da escala. O Si (a) coloca-se à distância de uma quinta do MI, ou de terceira maior do Sol. Ao mesmo tempo fixa-se o Si grave, formando oitava com o Si agudo. O Ré pode definir-se do duas maneiras: a distância de quarta perfeita com o Sol (b), o que dá lugar às relações entre notas que assinala o gráfico. Note-se que não há intervalo de terceira menor natural entre este Ré e o Fá. A segunda alternativa é definir o Ré à distância de quinta perfeita de Lá (c). Este novo Ré forma uma terceira menor com Fá mas não forma nenhum intervalo de interesse com o Si grave. Pode-se solucionar esse inconveniente definindo um Si grave de frequência mais baixa, no entanto, esta nova nota não forma oitava com o Si
agudo. |
Na
Figura 6 mostram-se os passos que há a dar para
fixar as dos que faltam. No gráfico (a), é
esquematizada a fixação do Si. Pode colocar-se a
distância de quinta perfeita do Mi e de terceira
maior do Sol, com uma frequência de 981.09 Hz. Ambos
são intervalos interessantes no momento de tocar,
especialmente, o de terceira, posto que em muitas
melodias é a distância que separa as duas vozes. Ao mesmo
tempo fica fixa a frequência do Si grave, que está uma oitava
abaixo, o que corresponde à nota mais grave do ponteiro em Dó.
A colocação do Ré é conflituosa. Há duas maneiras
diferentes de escolher a sua frequência. Em primeiro
lugar pode tomar-se como referência o Sol e colocar o Ré à distância de quarta perfeita (frequência de 588.65
Hz), como se vê na Figura 6.b. Esta nota mantêm
relações de terceira e sexta maiores com os dois Si
que definimos antes, mas não produz um intervalo de
terceira menor natural com Fá, que seria interessante
para tocar por terceiras. Uma segunda alternativa
seria colocar o Ré à distância de terceira menor do Fá (frequência de 581.39 Hz) com o que obteríamos,
aliás, um intervalo de quinta maior com Lá (gráfico
b).
O problema agora é que o Ré não afina com os Si.
Por outras palavras, não é possivel ter um intervalo
natural simultaneamente entre Ré e Fá, e entre Si e Ré. Se um afina, desafina o outro. Tocando por terceiras,
ambos os intervalos são importantes, uma possivel solução
sería baixar a frequência do Si grave até fazê-lo formar uma
terceira maior com Ré de frequência 581.39 Hz, tal como se
mostra na figura inferior. O preço que haveria que pagar sería
não ter uma oitava entre os dois Si da escala. No momento de
tocar não sería um grande problema, porque um acorde
semelhante é raro. Haveria que experimentar a possibilidade de
baixar o Si agudo, utilizando uma digitação adequada no
momento em que se necessite, em vez de construir um ponteiro
afinado desta maneira. No Si grave não temos esta
possibilidade. Em conclusão, as frequências mais interessantes
para o Si e o Ré seríam 484.49 e 581.39 Hz,
respectivamente.
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| Figura 7: Situação dos meios tons para construir uma escala cromática. No gráfico (a) situam-se Réb, Mib e Sib. Todos eles formam intervalos perfeitos com algumas das notas definidas anteriormente e a sua colocação não oferece problemas. No gráfico (b) esquematizam-se as alternativas para o Láb.
A nota de 837.20Hz é a melhor, visto que os intervalos que estabelece com a outra nota (817.58Hz), não se utilizam na música de gaita.
No gráfico (c) assinalam-se as frequências possíveis de
Solb. Não é uma nota muito utilizada. |
Seguindo a mesma técnica de procurar
intervalos interessantes, podemos tentar calcular a
frequência das notas que nos faltam para conseguir
uma escala cromática completa. Na Figura 7
é esquematizado o processo. No gráfico (a) mostra-se a
colocação de Réb, Mib e Sib. Nenhum deles apresenta
problema, porque podem colocar-se à distância de
terceira de alguma das notas básicas definidas no
princípio.aliás aparecem algumas relações interessantes entre
elas, como se vê na ilustração. O Réb é uma nota que
não se utiliza, só em certas ocasiões, mas as outras
duas são de uso obrigatório em melodias e passagens
em modo menor.
No gráfico b é esquematizada a
definição do Láb. Também haveria duas possibilidades,
mas a nota mais grave, (frequência de 817.58 Hz) é
descartável, porque os intervalos naturais que se obtêm
nunca aparecem nas melodías. Os duos por terceiras
correspondem aos intervalos que forma a outra opção
(837.20 Hz), a preferida. Por último, no gráfico c
mostra-se a colocação do Solb. Esta nota emprega-se
raramente. Pode colocar-se à distância de terceira menor de Lá, o que a colocaria também à distância de terceira maior de Ré (o Ré de 581.39 Hz).
Nas três primeiras colunas da
Tabela 2 resumem-se características de todas as notas que
acabámos de definir: a relação de frequências com a nota base,
a sua frequência e a distância em cents (ver Apêndice) até à
nota base. Na parte inferior dessa tabela também expõem as
características das notas alternativas que considerámos menos
interessantes. Este sistema de afinação serviría bem para
tocar entre duas gaitas afinadas no mesmo tom, como é habitual
nos grupos de gaiteiros mais comuns.
O sistema deixa de
funcionar tão bem, quando pretendemos
tocar instrumentos de várias tonalidades juntos, como
uma gaita en Dó com outra em Sol, ou uma gaita com
uma requinta. Haveria que escolher as notas mais
graves que dão estes instrumentos para que formassem
intervalo de oitava com as do ponteiro. Aparecem
novos problemas de afinação, porque o Sol, (a tónica
do ponteiro mais grave), não forma intervalos
naturais com o Si e o Ré (do ponteiro em Dó)
escolhidos pelos critérios expostos acima. Neste caso, são
mais vantajosas as versões agudas dessas duas notas,
mas, inevitávelmente, há que renunciar à terceira Si-Ré. 
A ESCALA TEMPERADA E AS
SUAS DIFERENÇAS
COM A ENTOAÇÃO
NATURAL
Neste capítulo discutiremos as
diferenças entre a escala em entoação natural e a escala que
mais se utiliza actualmente, a escala em entoação temperada.
Também discutiremos as vantagens e problemas que têm cada uma
delas. Para ajudar a ver os argumentos que vamos a expôr,
preparámos a Figura 8.
Representámos as escalas
sob a forma de escadas com os degraus separados entre si, igual
às notas na escala, (referindo a sua distância em
cents).
 |
| Figura 8: Estas escadas representam os dois tipos de escala que se comentam no texto. Cada degrau representa a situação de uma nota na escala. A distância que separa os degraus é proporcional à distância em Cents entre notas. À esquerda (a) representam-se duas escalas cromáticas em entoação natural, uma construída tomando como nota base o Dó e outra o Ré. Observe-se que a distância entre degraus (notas ), na escala natural não é sempre a mesma. Também se observa que que várias das notas equivalentes nas escalas não estão à mesma altura, é dizer, têm frequências diferentes.
No gráfico (b), as escalas representadas são temperadas. Agora coincidem tanto as distâncias entre notas como as notas entre escalas construídas sobre notas distintas. Em (c) comparam-se as duas escalas para poder apreciar claramente as diferenças que há na ditribuição de notas. |
No gráfico a) estão representadas duas
escalas cromáticas em entoação natural. Há um degrau
na escada por cada meio tom da escala. Como se aprecia
imediatamente, as distâncias entre degraus são
irregulares; a escada mais à esquerda representa uma
escala construída sobre a nota Dó, como no
apontamento anterior. A escala que está ao lado foi
construída sobre a nota Ré, por isso o seu primeiro
degrau coincide à mesma altura com o terceiro de Dó.
Comparando-as, aparece claramente um problema
deste tipo de escala: os degraus equivalentes em
ambas as escadas não coincidem à mesma altura en vários
casos. Por exemplo, o terceiro degrau da escada da
direita devería coincidir com o quinto degrau da esquerda
e no entanto está colocado entre o quarto e o quinto.
Traduzido por notas, isto quer dizer que o Mi da
escala de Ré não seria o mesmo que o da escala de Dó.
Há mais casos, ao comparar ambas as escadas. Este
comportamento seria uma dificuldade enorme
para construir um piano, por exemplo, que fosse capaz
de tocar em todas as tonalidades, ou seja, em escalas
construídas sobre diferentes notas. Necessitaríamos
de mais de uma tecla para cada nota, para usá-la
quando mais conviesse, segundo a tonalidade
que empregássemos. Seria muito complicado construir
um instrumento semelhante.
Este problema é o
que levou à invenção da escala em
entoação temperada.
A solução seria ter uma
escala com todas as notas separadas pela mesma
distância em cents . Nisto consiste a escala temperada.
As escadas da Figura 8.b simbolizam duas escalas
cromáticas temperadas, uma que começa em Dó e a outra
em Ré. Os degraus da escala de Dó coincidem à mesma altura que
os da escala de Ré. As notas têm idênticas frequências nas
duas escalas. Ocorrería o mesmo, fosse qual fosse a nota em
que começasse cada uma, as notas coincidiríam sempre. Como o
piano utiliza uma escala temperada basta-lhe conter doze notas
por oitava para poder interpretar melodías em qualquer
tonalidade.
Na Figura
8.c compara-se uma escada “temperada” com uma
escada “natural”, para que se vejam bem claras as diferenças.
Aliás,a Tabela 2 recolhe os
dados de frequência de ambos os tipos de
escala. Também se recolhem os intervalos em cents
entre o Do e o resto das notas. Os intervalos
expressados em cents são independentes da frequência
que se usou para calcular as notas da escala.
No
Apêndice explica-se a forma
de cálculo para os cents e a sua origem. A última coluna da
tabela serve para comparar ambas as escalas. Calculou-se a
distância em cents desde cada nota da escala temperada até ao
seu equivalente da escala de entoação natural. A escala
temperada tem vantagens, mas a um preço. Os
intervalos que se formam nela estão desafinados.
Quando soam os intervalos temperados, produzem-se
frequências de batimento. O de oitava não, como é óbvio,
mas em muitos outros, sim. A quinta e quartas
em entoação temperada são quase idênticas à quinta em
entoação natural (ver Tabela
2). O problema principal é que as terceiras
temperadas estão bastante pior afinadas que as quintas, o qual
é um inconveniente para os gaiteiros, que tocam
muitíssimo por terceiras.
Que a escala que
utilizamos habitualmente seja uma escala desafinada, pode soar
bastante estranho, mas é a realidade. É uma desafinação
controlada e a que estamos tão acostumados pela nossa educação
musical, que não estamos conscientes dela.
Há bastantes
diferenças entre ambas as entoações. A nota que
mais distância mantém é o Si grave, essa nota anómala
que propusemos para melhorar a
afinação. 
Ora bem; e as gaitas galegas que utilizamos
hoje em dia, como
estão afinadas?
A ESCALA DAS GAITAS GALEGAS
ACTUAIS
Para fazermos uma ideia de como é a
afinação no meio das gaitas, realizámos uma medição
das frequências de todas as notas de doze ponteiros
de diferentes constructores e tonalidades. É preciso
dizer que a realização de medidas deste tipo tem uma
série de dificuldades. Gravámos o som dos ponteiros
(tocando-os sem ronco) e logo, calculámos a
frequência de cada fundamental, através de
um programa de computador que nos permite decompor os
sons nos harmónicos que os compõem.
Os
resultados obtidos devem ser tomados como um simples
“tactear” inicial, uma primeira prova para saber por
onde anda a coisa, nada mais. Fizémo-la com os
ponteiros que pudémos reunir entre nós os três. A
afinação de cada ponteiro é insegura, alguns deles
levavam algum tempo sem tocar e foram empalhetados
para a prova, o que pode dar como resultado afinações
alteradas. Tendo isto em conta, apresentámos os dados
na Tabela 3 (só com o afã de ilustrar um pouco a
discussão).
Nela se indicam os intervalos em cents, desde
a tónica do ponteiro, (como se todos os ponteiros
fossem em Dó).
Os dados da última coluna são a média
dos resultados dos doze ponteiros. O uso do valor
médio ajuda-nos a eliminar as variações individuais
de cada ponteiro e obter um valor de afinação mais
fiável. Nas colunas centrais estão representados os
valores das afinações de referência. Como curiosidade, apenas o facto de que um dos ponteiros utilizados tem uma afinação que
coincide em quase todas as suas notas com a entoação natural
teórica.
A análise dos dados da experiência indica-nos o
seguinte: As notas agudas, incluíndo o Dó agudo,
parecem estar demasiado altas. Ao gravar sem ronco é
muito possivel que se tenha aumentado a pressão do fole
inconscientemente ao chegar a essa zona do ponteiro e as
frequências resultantes sejam altas artificialmente. Se
tiramos os 12 cents que sobram ao Dó agudo às três notas
inferiores, ficamos com afinações muito similares às que marca
a afinação temperada. O resto das notas também se aproximam
mais da afinação temperada que da natural com duas excepções;
o Mib parece estar alto, em média, ainda que haja uma variação
muito grande entre ponteiros, (possivelmente este valor será
algo fictício).
A segunda excepção, e a mais
importante, é o Mi. Esta nota está claramente afinada
segundo um intervalo natural. A média
coincide exactamente com o valor teórico e nenhum dos
ponteiros se aproxima do valor da entoação temperada. Hoje
em dia parece clara a influência da escala temperada
na construção dos nossos instrumentos. Resultaria
interessante estabelecer como seriam as escalas dos
gaiteiros que não dispunham da ajuda dos afinadores
electrónicos, e se guiavam pelo ronco, o melhor afinador de
que dispunham. É um estudo que quiçá, faremos
brevemente.
Mas no caso das gaitas, utilizar a escala
temperada tal e qual, tem problemas mais graves que
os habituais, no caso de outros instrumentos, como o
piano ou o clarinete. As gaitas têm os bordões, que produzem
continuamente a tónica do ponteiro. O normal será que se
produzam frequências de batimento se as notas do ponteiro não
estão afinadas segundo a entoação temperada. O problema
agudiza-se porque o som do ronco está duas oitavas abaixo do
ponteiro. A frequência de batimento entre notas tão distantes
entre si é mais exagerada do que se ambas as notas
pertencessem à mesma oitava.
Muitas das pausas das
melodias realizam-se sobre as três notas que compõem
o acorde maior da tónica, ou seja, o primeiro, terceiro
e quinto graus da escala. Por este motivo a maioria
das notas longas das melodías são alguma destas três.
Com a quinta e a quarta não há problema, uma vez que quase
coincidem em escalas naturais e temperadas. A
terceira maior temperada provocará desafinação com os
roncos nessas situações e, por serem longas estas notas,
notar-se-á muito. O efeito é menos evidente nas outras notas
que acontece serem notas mais curtas, por ser de passagem. Por
isso, numa gaita, o terceiro grau da escala tem que afinar-se
segundo a entoação natural e não temperada, senão, a
desafinação será bastante escandalosa.
Pode
comprovar-se tudo isto de uma forma muito simples: com o uso de fita adesiva pode levar-se o Mi de um ponteiro de Dó (ou a
nota equivalente em qualquer outro ponteiro) até a
afinação que exige o afinador (afinação temperada).
Quando convertemos a afinação em temperada poderemos
comprovar como o nosso novo Mi desafina com o
ronco. 
CONCLUSÃO: UMA
PROPOSTA DE AFINAÇÃO EM ENTOAÇÃO NATURAL PARA A
GAITA
A escala em entoação natural que
propomos neste trabalho seria perfeitamente aplicável
à gaita. Representaria conseguir uma afinação mais
pura, mais doce. Estender os beneficios que obtemos para
o terceiro grau da escala aos demais. Pagar-se-ia o
preço de que uma escala deste tipo não é tão versátil
tonalmente, como a escala temperada, mas este seria
um preço barato. Os gaiteiros tradicionais não tocam
mais que numa tonalidade nos seus modos maior e
menor. Algumas melodias estão em modo maior com o
sétimo grau alterado descendentemente. Qualquer
destas variações pode realizar-se em entoação
natural. Afortunadamente, os gaiteiros não têm que
tocar melodias em Fá# menor com um ponteiro em Do,
nem coisas do estilo, pelo que a perda da capacidade
que têm os instrumentos temperados de passar de umas
tonalidades a outras, a nós não nos afecta
muito.
Lógicamente, qualquer pessoa que leia estas linhas
perguntará se valerá a pena abandonar uma escala como
esta, tendo em conta que, actualmente, as gaitas soam
bastante bem, tal como estão. A única resposta
válida, sería a de que cada um
obtivesse experimentando utilizar esta escala e, uma
vez acostumado o ouvido a ela, ver se somos capazes de voltar
a utilizar a escala velha com tanto gosto como antes. Quando
éramos novatos, não nos preocupava demasiado que o
ronco estivesse desafinado, mas hoje em dia não somos
capazes de tocar assim. Isto não é mais que um problema
de educação do ouvido, nem mais nem menos, e o da
utilização de uma ou outra entoação, também o é.
A
questão principal é que expusemos a teoria e os princípios
sobre os quais se baseia a construcção de escalas e demos
resposta à questão que nos fez começar este trabalho.
Esperamos que isto sirva para aumentar o conhecimento das
particularidades do nosso instrumento e ajude a cada um a
tomar decisões bem fundadas acerca da afinação mais
conveniente para si. Há gente que não poderá escapar da
afinação temperada, visto que tem que tocar com outros
instrumentos, mas os gaiteiros que vão tocar em parelhas (ou
em bandas) terão a liberdade de procurar essa afinação, se
a considerarem mais
interessante. 
BIBLIOGRAFIA
Benade, A. H. (1990). Fundamentals of musical
acoustics. 2ª edição. Dover Publications, Inc.
New York. Helmholtz; H. L. (1885). On the
sensations of tone as a physiological basis for the
theory of music. Segunda edição inglesa, traduzida
do alemão e comentada por A. J. Elhis. Edição
facsímile, 1954. Dover Publications, Inc. New
York. Fletcher, N. H.; Rossing, T. D. (1991).
The physics of musical instruments. Springer
Verlag New York, Inc. New York. Piles Estellés, J.
(1982). Intervalos y gamas. Temas de
musicología. Instituto Valenciano de Musicología
Alfonso el Magnánimo. Ed.
Piles. Valencia. 
APÊNDICE: HERTZ E
CENTS
A longo de todo o texto utilizámos as
frequências para definir os sons. Todavia,
caracterizamos os intervalos pela relação entre
as frequências dos dois sons que o formam. Dividindo
uma frequência pela outra, temos uma ideia da
distância que separa ambos os sons. Enquanto essa
distância se mantiver, reconheceremos sempre
o intervalo. É curioso dar-se conta de que, à medida
que os sons se fazem mais agudos, a distância em
hertz que representa cada intervalo, se vai fazendo
cada vez maior. O Lá padrão tem uma frequência de 440
Hz, e a sua oitava, 880 Hz, e a oitava deste,
1760 Hz. Os intervalos medidos em hertz vão
duplicando a sua largura, apesar de nós continuarmos
a reconhecer todos esses intervalos como oitavas.
Esta é a razão pela qual se utilizam relações
entre frequências, e não frequências absolutas, para
identificar os intervalos. A medida da largura de intervalo
que mais se utiliza é o cent. A base desta medida é
também a divisão da frequência de uma nota pela
da outra, mas realizam-se uma série de correcções
matemáticas para conseguir dividir cada semitom
temperado em cem partes e que esta divisão seja igual
sem importar quais são as frequências reais. Cada uma
dessas partes é denominada cent e a oitava é dividida en
1200 cents. Um ouvido bem educado pode perceber
diferenças à volta de três cents, pelo que os cents
são unidade suficientemente pequenas. A fórmula para
calcular a distância em cents entre duas
notas conhecendo a sua frequência é:
|

(f1 e
f2 são as frequências das notas)
|
Os afinadores
electrónicos marcam a diferença entre o padrão e
a nota do nosso instrumento em cents. Se queremos
utilizar um destes aparelhos para afinar uma gaita segundo a
entoação natural, a única coisa que temos que fazer, é
conhecer a distância que separa as notas naturais, das
temperadas. Para estas últimas notas a indicação do afinador é
zero, as notas naturais estarão por cima ou abaixo de zero. Na
Tabela são indicadas essas distâncias. Também se indicam as
distâncias para um ponteiro em Sol que interesse
afinar para tocar com um ponteiro em Do, afinado
segundo a entoação natural. 
TABELAS
Tabela 1:
Relações entre os harmónicos das notas que
formam entre si diversos intervalos em entoação
natural (P=perfeita; M=maior; m=menor). Tomou-se como
base uma nota cuja frequência fundamental é 100 Hz.
Na primeira coluna indicam-se os nomes
dos intervalos, na segunda, a relação de frequências
entre as notas necessária para formar o intervalo de
entoação natural na terceira, a frequência
fundamental da nota mais aguda. A nota grave com a
que se forma acorde, em todos os casos, é a da
primeira fila. São indicadas as frequências dos
harmónicos de cada nota, até uma frequência máxima de
1000 Hz. Aqueles harmónicos que coincidem entre as
duas notas, são afixadas em Bold, para diferenciá-los
dos restantes.
| Tabela
1 |
Harmónicos
|
| Intervalo |
Rel. |
1 |
2 |
3 |
4 |
5 |
6 |
7 |
8 |
9 |
10 |
| Uníssono |
1:1 |
100 |
200 |
300 |
400 |
500 |
600 |
700 |
800 |
900 |
1000 |
| 8ª Perfeita |
2:1 |
200 |
400 |
600 |
800 |
1000 |
|
|
|
|
|
| 5ª Perfeita |
3:2 |
150 |
300 |
450 |
600 |
750 |
900 |
|
|
|
|
| 4ª Perfeita |
4:3 |
133.3 |
266.6 |
400 |
533.3 |
666.6 |
800 |
933.3 |
|
|
|
| 6ª
Maior |
5:3 |
166.6 |
333.2 |
500 |
666.6 |
833.3 |
1000 |
|
|
|
|
| 3ª
Maior |
5:4 |
125 |
250 |
375 |
500 |
625 |
750 |
875 |
900 |
|
|
| 3ª
menor |
6:5 |
120 |
240 |
360 |
480 |
600 |
720 |
840 |
960 |
|
|
| 2ª
Maior |
9:8 |
112.5 |
225 |
337.5 |
450 |
562.5 |
675 |
787.5 |
900 |
|
|
| 6ª
menor |
8:5 |
166 |
332 |
498 |
664 |
830 |
996 |
|
|
|
|
|
Tabela 2. Escalas em
entoação natural e em entoação temperada. São
indicadas as frequências de cada nota e o intervalo em
cents entre ela e a nota base (Dó). As notas mais
agudas estão no principio da tabela. Para cada intervalo em
entoação natural inclúi-se a relação de frequências em frente
à nota base. Na última coluna indica-se a diferença em cents
entre a nota em entoação natural e a temperada. (o sinal +
indica uma nota mais aguda que a
temperada correspondente e o sinal -, mais grave).
Esta coluna é útil para afinar um ponteiro em
entoação natural, utilizando um afinador
calibrado para escalas temperadas. A diferença em
cents mantém-se, seja qual for a nota base que utilizemos, ou
seja, é válido para ponteiros de qualquer
tonalidade.
| Tabela
2 |
Entoação
natural |
Entoação
temperada |
|
| Nota |
Rel.
Frq. |
Frequência |
Cents |
Frequência |
Cents |
Diferença |
| Dó |
2.000 |
1046.50 |
1200 |
1046.50 |
1200 |
0 |
| Si |
1.875 |
981.09 |
1088 |
987.76 |
1100 |
-12 |
| Sib |
1.800 |
941.84 |
1018 |
932.32 |
1000 |
18 |
| Lá |
1.667 |
872.08 |
884 |
880.00 |
900 |
-16 |
| Láb |
1.600 |
837.20 |
814 |
830.61 |
800 |
14 |
| Sol |
1.500 |
784.87 |
702 |
783.99 |
700 |
2 |
| Solb |
1.389 |
726.73 |
569 |
739.99 |
600 |
-31 |
| Fá |
1.333 |
697.66 |
498 |
698.45 |
500 |
-2 |
| Mi |
1.250 |
654.06 |
386 |
659.25 |
400 |
-14 |
| Mib |
1.200 |
627.90 |
316 |
622.25 |
300 |
16 |
| Ré |
1.111 |
581.39 |
182 |
587.32 |
200 |
-18 |
| Réb |
1.042 |
545.05 |
71 |
554.36 |
100 |
-29 |
| Dó |
1.000 |
523.25 |
0 |
523.25 |
0 |
0 |
| Si |
0.925 |
484.17 |
-134 |
493.88 |
-100 |
-34 |
| Notas
correspondentes a um ponteiro em Sol |
| Sib |
1.111 |
470.92 |
-182 |
466.16 |
-200 |
18 |
| Lá |
1.200 |
436.04 |
-316 |
440.00 |
-300 |
-16 |
| Láb |
1.250 |
418.60 |
-386 |
415.30 |
-400 |
14 |
| Sol |
1.333 |
392.44 |
-498 |
391.99 |
-500 |
2 |
| Solb |
1.446 |
361.87 |
-638 |
369.99 |
-600 |
-38 |
| Notas
alternativas menos vantajosas (só do ponteiro agudo) |
| Láb |
1.562 |
817.57 |
773 |
783.99 |
800 |
-27 |
| Ré |
1.125 |
588.65 |
204 |
587.32 |
200 |
4 |
| Si |
0.937 |
490.54 |
-112 |
493.88 |
-100 |
-12 |
A tabela inclui também as notas
inferiores que daría um ponteiro ou uma requinta em
Sol. O último grupo de notas são as
notas alternativas comentadas no texto, mas
consideradas pouco vantajosas, (só as do ponteiro em
Dó).
Tabela 3. Afinação média de doze
ponteiros de diferentes tons e artesãos. As notas
indicam-se como se fossem de um ponteiro em Dó,
apesar de serem de tonalidades diferentes. Medimos
os intervalos em cents, frente à tónica de cada
ponteiro, o que nos permite compará-los entre
si. 
| Tabela
3 |
Entoação |
| Nota |
Natural |
Temperada |
Média |
| Dó |
1200 |
1200 |
1212 |
| Si |
1088 |
1100 |
1118 |
| Sib |
1018 |
1000 |
1014 |
| Lá |
884 |
900 |
909 |
| Láb |
814 |
800 |
807 |
| Sol |
702 |
700 |
699 |
| Fá |
498 |
500 |
503 |
| Mi |
386 |
400 |
386 |
| Mib |
316 |
300 |
329 |
| Ré |
182 |
200 |
207 |
| Dó |
0 |
0 |
0 |
| Si |
134 |
100 |
101 |
Agradecimentos:
Ao contributo de José J. Presedo e aos autores deste artigo, Carlos Real, Jesús Vaamonde e Manuel
Fernández, pela permissão de tradução e publicação do
seu trabalho.
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