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Gaita asturiana moderna
em Dó# (foto: cortesia Museu da Gaita de Xixón, Astúrias)
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Astúrias
(Espanha) |
Quando
falamos de Gaita Asturiana, referimo-nos a um tipo de Gaita-de-fole
que pode ser encontrada nas Astúrias, no noroeste da Península
Ibérica, que é muito semelhante a outras gaitas-de-fole do ocidente
peninsular (como as gaitas galegas, transmontanas ou sanabresas, por
exemplo), mas ao mesmo tempo é muito diferente destas.
Com efeito, a "Gaita
Asturiana" é assim chamada para distingui-la das outras
gaitas-de-fole do mesmo tipo que encontramos na península, pois nas
Astúrias, como na Galiza, em Leão ou em Portugal, todas as
gaitas-de-fole são chamadas de "gaita", "cornamusa"
ou "gaita-de-fole". Ou seja, os nomes "gaita asturiana",
"gaita galega" ou "gaita transmontana" foram
criados mais tarde, para distinguir os diferentes tipos existentes.
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| Capitel
da Igreja de Santa Maria de la Oliva (Villaviciosa). |
Não se sabe quando terá
surgido nas Astúrias a Gaita-de-fole (como de resto não se sabe em
todo o mundo), mas as primeiras representações conhecidas do
instrumento datam do Século XIII, com capiteis decorados nas
igrejas de Plecín, em Alles e Santa María de la Oliva, em Villaviciosa,
sendo que outras iconografias podem ser encontradas posteriormente, no
Século XVI e até aos nossos dias. É também da Idade Média que
datam a maior parte das primeiras iconografias de Gaita-de-fole por
toda a Europa, e as Astúrias, bem como praticamente toda a península
ibérica, não são excepção. Apesar dos mitos criados sobre o
período medieval, havia grande mobilidade de pessoas e bens (através
do comércio e peregrinações), por isso é provável que
instrumentos de vários tipos circulassem e talvez se possa datar daí
a sua introdução (embora não existam provas concretas desse facto).
A Gaita Asturiana pode ser inserida no grupo organológico das
restantes gaitas-de-fole de tubo melódico cónico que podem ser
encontradas no ocidente peninsular: possui um fole, (geralmente de
cabrito), onde estão alojados um bordão ("roncon"), um
soprete ("soplete") e um tubo melódico - oboé de palheta dupla
- ("punteru").
Por isso, organologicamente, é o mesmo tipo de instrumento que uma
gaita galega, transmontana ou sanabresa.
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José
Angel Hevia, talvez
o mais mediático gaiteiro asturiano. |
E todavia, é muito
diferente: a morfologia da
Gaita asturiana é muito característica - as gaitas mais clássicas
são feitas em madeira de buxo (embora hoje em dia também se usem
outros materiais) e as peças raramente exibem anéis de reforço
("viroles"), que eram feitos em osso.
O
ronco ou o ponteiro são também torneados com formas muito simples,
sem adornos excessivos e os desenhos mais clássicos têm ponteiros
campaniformes (apenas por fora, pois a furação interior é cónica) e a copa do ronco de formato
arredondado, sendo recente a introdução das copas com formato
cónico. Algo que distingue
a gaita asturiana é também o torneado do soprete, que é decorado
com várias secções circulares.
O
fole é geralmente arredondado, de forma oblonga.

Diagrama com as
peças de uma gaita asturiana (em Asturiano), mostrando a sua disposição e
corte longitudinal (desenho: José Ángel
LLaneza Älvarez).
Mas é nos aspectos tímbricos e musicais que a Gaita asturiana possui
diferenças notórias, que a diferenciam claramente de outros modelos.
O seu ponteiro tem um timbre muito próprio, com a capacidade de
requintear, ou seja, subir até notas muito agudas - as Gaitas
Asturianas mais antigas possuíam uma gama de oitava e meia (por
exemplo, da tónica Dó até Fá da oitava seguinte) mas devido ao
trabalho recente de vários artesãos, como Alberto Varillas, por
exemplo, estas já conseguem fazer até uma oitava e meia com uma escala cromática
completa - isto faz-se graças a digitações cruzadas ou tapando meio
buraco, por exemplo.
A Gaita Asturiana tem uma digitação fechada (ou seja, abre-se um
buraco ou dois para emitir cada nota, mantendo os outros fechados), o que
acentua as passagens entre notas, com grande efeito. As tonalidades existentes podem variar entre
Dó sustenido, Dó, Si e Si bemol.
A palheta dupla ("payuela"), alojada no ponteiro, é também
muito diferente das que podem ser encontradas nas gaitas galegas, por
exemplo. Possui um freio ou jugo móvel ("frenillu"), de madeira ou cana, que pode
ser deslocado e que permite aos gaiteiros asturianos terem uma palheta
muito manejável, com grande flexibilidade na afinação e no timbre.
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Xiringüelu
(1.3 Mb)
O Gaiteiro asturiano Flávio Benito interpreta o "Xiringüelu",
acompanhado pela percussão de Pedro Pangua, na Caixa asturiana. |
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Gaiteiros
asturianos do princípio do Século XX.
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Aliás, a flexibilidade
dessa palheta é tal, que o tempero (a capacidade de manter o som sem
oscilações), é cuidadosamente medido e exige grande rigor.
Os gaiteiros asturianos começam habitualmente as músicas com um
prelúdio ("floréu" - floreado): uma passagem por todas as notas da escala, que é usado
não só para identificar a música e transmiti-la aos dançadores,
mas também para "testar" a afinação de todas as notas do
instrumento e evitar as oscilações e desafinações. Os vários
estilos de prelúdios acabam por ser definidos por cada gaiteiro e
tornam-se muitas vezes um sinal da sua identidade como músicos. Entre
os nomes de gaiteiros asturianos mais famosos contam-se os do Gaiteru Lliberdón, Remis
Ovalle, Manolo Quirós, Hevia, Xuacu Amieva, Flavio Benito, entre
outros.
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Xuacu
Amieva, um dos recentes recuperadores da Gaita Asturiana.
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As formações que tocam este tipo de instrumento são muito
semelhantes às encontradas um pouco por toda a península ibérica,
sendo na sua maior parte, conjuntos de gaiteiro individual,
acompanhado de caixa. Recentemente, devido às modificações
que foram introduzidas nas escalas musicais destas gaitas, para que
estas tocassem uma escala temperada uniformizada, é possível ver
formações com dois ou mais gaiteiros que tocam em conjunto gaitas
iguais.
Outro aspecto muito interessante dos conjuntos de gaita asturiana, é
a percussão, que utiliza a chamada "caixa asturiana",
("tambor", "caxa" ou "redoblante"), um
tipo de membranofone semelhante aos usados no contexto ibérico, que
é tocado com grande plasticidade e mestria e possui um timbre muito
característico.
O repertório mais tocado neste tipo de gaita é constituído por
géneros musicais usados nas festas populares, sobretudo, nas danças:
Jota, Fandango, (diferentes das Jotas ou Fandangos de outras regiões
da península), Valsa, Saltón, Muñeira, entre outros. Outros
géneros são também muito populares: Alvoradas, "Pasucais" (Arruadas)
e as chamadas "Asturianadas" (canto acompanhado de Gaita
asturiana).
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