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Não vos vades assim,
Leixai ora a gaita vir
E o nosso tamboril
E ireis mortos daqui
Sem vos saberedes bulir
Gil Vicente, Tragicomédia
Pastoril da Serra da Estrela
Vivemos actualmente um período decisivo para a humanidade: a viragem milenar. Data sempre intrigante e fonte de debates polémicos, este momento é sinónimo de avaliação.
Uma avaliação em que o passado, o presente e o futuro se fundem numa experiência sem fronteiras.
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Delfim de Jesus Domingues,
( Póvoa ) foto: D. Delpoux |
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E isto é duplamente verdade em relação à arte suprema que é a música tradicional.
Expressão da identidade cultural dos povos, a música tradicional é um elemento diferenciador das suas raízes. E, afinal, num tempo em que se fala todos os dias de “aldeia global”, importa fazer valer as marcas que nos tornam únicos.
Vejamos o caso português. Verdadeira homenagem às raízes mais profundas da portugalidade, a nossa música tradicional é o espelho do modo de viver das gentes lusitanas. Como diz um velho ditado, em Portugal “A cantar se trabalha, a cantar se ora, a cantar se ama.”
A vida musical tradicional portuguesa possui muitos componentes. Reside aí a sua diversidade e riqueza e a razão pela qual constitui um património de inestimável valor que é fundamental preservar, promover e transmitir de geração em geração como acto supremo de comunicação cultural.
Símbolo vivo das nossas raízes músicais, a gaita de foles é um desses componentes. Um componente privilegiado saliente-se, pois, constitui uma autêntica expressão musical do povo português.
Por tudo isto, a Associação Gaita-de-Foles decidiu dar vida a um projecto há muito pensado pelos seus membros: criar uma publicação, de carácter periódico, inteiramente dedicada ao instrumento gaita de foles e à música tradicional em geral.
A edição pioneira que aqui apresentamos vem concretizar esse propósito. Na essência, trata-se de uma publicação que tem por missão fundamental divulgar os resultados provenientes da investigação realizada, no âmbito da Associação, acerca do instrumento gaita de foles e da música tradicional, seja em termos do espaço português, seja ao nível internacional.
Naturalmente, o espaço português constitui a principal fonte de estudo, análise e divulgação. Facto tanto mais importante e urgente, quanto a actual aridez do panorama editorial português ao nível musical - principalmente em termos de música tradicional, onde se verifica uma total ausência de publicações. Por outro lado, o facto de nunca ter existido em Portugal algo semelhante à presente edição motivou ainda mais a Associação no sentido de tornar este projecto uma “feliz” realidade.
Outro dos objectivos fundamentais da presente publicação consiste
em demonstrar a distribuição alargada de que goza o instrumento gaita de foles no nosso país. Com efeito, e apesar de obviamente possuir uma presença mais marcante, quer em termos de actividade real, quer em termos de tradição, na região transmontana, a gaita de foles é, inequivocamente, um instrumento de carácter generalista em Portugal. Ela transcende em muito as apertadas fronteiras regionais que, em geral, se lhe atribuem. A comprová-lo destacam-se as inúmeras referências (literárias, iconográficas, museológicas, entre muitas outras) espalhadas por todo o território nacional, e que a nossa Associação pretende, em última análise, pesquisar e analisar até ao mais ínfimo pormenor.
As investigações efectuadas no âmbito desta edição abarcam diversas áreas, nomeadamente a história, a geografia, a etnografia, a música, a museologia, a antropologia, a fotografia, a pintura, a construção de instrumentos musicais, o artesanato, a literatura e o património.
Tudo no sentido de dar a ver a riqueza, o alcance e o elevado valor histórico-cultural quer da gaita-de-foles, quer da música tradicional nas suas mais variadas facetas.
Paulo
Marinho.
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